sábado, 28 de março de 2020

Se a Alma não é Pequena

Nem sempre as pessoas fazem o que querem; nem sempre querem o que fazem.
A criança gostaria de ficar brincando. Os pais impõem-lhe a escola, em seu próprio benefício.
O doente não tem nenhuma disposição para internar-se no hospital. Inadiável, porém, a cirurgia para debelar o mal que se agrava.
O operário preferiria o clube. Impossível. A família depende de sua atividade profissional.
O condenado não sente vocação para permanecer segregado na prisão. Não obstante, há uma penalidade a ser cumprida.
Algo semelhante ocorre na experiência reencarnatória, "indispensável" recurso evolutivo no estágio em que nos encontramos.
Retornamos à carne vezes sem conta, até que nos tornemos aspirantes à angelitude.

Espíritos imaturos estimariam permanecer "numa boa", evitando as limitações da matéria, as complicações do esquecimento, os problemas de reconciliação com desafetos, o suor no rosto, as dores do mundo, as angústias existenciais...
Mesmo os mais esclarecidos encaram com relutância o retorno, embora conscientes de que, como diria Camões, reencarnar é preciso.
Não raro o Espírito sente-se tão inseguro ou tão contrariado, reluta tanto que chega a rejeitar a experiência que se inicia. Dispara ele próprio problemas fetais que podem resultar no aborto.
Esta fuga acontece particularmente no início da gestação, quando tênues são os laços que o prendem ao corpo.
A gestante nem chegará a perceber, julgando-se às voltas com mero atraso no ciclo menstrual.
Há casos em que se consuma a reencarnação, mas o Espírito recusa-se à nova existência, originando um comportamento autista, como se buscasse esconder-se dentro de si mesmo.
Fácil concluir que reencarnar não é o simples ligar de uma tomada. Há vários fatores que precisam ser harmonizados. Imperioso, sobretudo, trabalhar os pais para que se disponham ao encargo, evitando grave problema: a rejeição.

A jovem senhora vai buscar o resultado do teste de gravidez.
No papel que lhe é entregue destaca-se o desenho de uma cegonha carregando sorridente bebê, simpática maneira escolhida pelo laboratório para transmitir-lhe a notícia de que o resultado é positivo. Será novamente mãe.
- Meu Deus! Outro filho! Vai complicar!
A reação do marido é pior:
- Culpa sua! Bem que avisei que não deveria interromper o uso das pílulas!
- E continuar engordando como suíno confinado!... Por que não fez você a vasectomia, como recomendou o médico?
- Acirra-se a discussão. O ambiente esquenta. Agridem-se verbalmente os cônjuges, trocando acusações e asperezas...
Pobre reencarnante!... Como se sentirá?
Um enjeitado, sem dúvida. Será difícil evitar a sedimentação da ideia de que o consideram um intruso, alguém que veio para atrapalhar, sem pedir licença.

E quanto a nós, qual teria sido a nossa motivação para o retorno à carne?
Não é difícil definir. Basta analisar como encaramos a existência.
Gastamos tempo a reclamar do cotidiano?
Damos guarida a mágoas e irritações?
Resvalamos para estados depressivos e angustiantes?
Desentendemo-nos frequentemente com pessoas de nossa convivência?
Sucedem-se, ininterruptos, desajustes físicos e psíquicos que nos incomodam?
Se a resposta é afirmativa, estamos numa "compulsória". Reencarnamos meio "na marra", como diz o povo.
Mas podemos mudar isso, considerando que é irrelevante como viemos. Importante é saber o que nos compete fazer na experiência humana.
Neste particular o Espiritismo tem muito a nos oferecer, ensinando-nos, sobretudo, que nossa vida será exatamente o que dela fizemos.
Por opção diária, não seja a Terra para nós uma jaula, uma prisão, um hospital, um reformatório...
Vejamo-la sempre como abençoada escola/oficina, onde nos compete valorizar todas as experiências em favor de nossa edificação. 
Ensina Fernando Pessoa, o poeta filósofo:
"Tudo vale a pena, se a alma não é pequena".
Dores e lutas, trabalhos e esforços a que somos chamados na Terra, desde o simples varrer de uma casa às funções mais complexas, "tudo vale a pena", se desenvolvermos em nossa alma a grandeza necessária para enxergar a oportunidade de fazer sempre o melhor.

Diz André Luiz, em psicografia de Francisco C. Xavier:
"Comece o dia à luz da oração. O amor de Deus nunca falha".
Temos aqui a melhor maneira de iniciar as labutas diárias.
Em Deus está nossa força, nosso estímulo, nossa grandeza d'alma, para que valorizemos a hora que passa, fazendo o melhor.
Fundamental, neste particular, que não busquemos simplesmente os favores do Céu.
Não a oração de quem pede.
Mas a oração de quem oferece serviço.
Quem pede encontra, eventualmente, o Senhor.
Somente o que serve situa-se ao lado dEle.

Por isso, Francisco de Assis, que entendia de oração, dizia:

Senhor, faze de mim um instrumento de tua paz!
Onde houver ódio, que eu leve o amor,
onde houver ofensa, que eu leve o perdão;
onde houver discórdia, que eu leve a união;
onde houver dúvidas, que eu leve a fé;
onde houver erros, que eu leve a verdade;
onde houver  desespero, que eu leve a esperança;
onde houver trevas, que eu leve a luz!
Mestre,
faze com que eu procure menos ser consolado que consolar,
ser compreendido que compreender,
ser amado do que amar...
Pois é dando que se recebe, é perdoando que se é perdoado,
é morrendo que se vive para a vida eterna!
(Richard Simonetti-Viver em Plenitude)


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