sexta-feira, 30 de abril de 2021

Estrada Cunha Paraty

A Caridade Que Não Salva

A cerimônia já se encaminhava para o final e, no grande ambiente da catedral em reformas, as pessoas se acotovelavam entre andaimes e escadas. Acostumados ao comparecimento semanal e rotineiro, cada um seguia os rituais repetindo as frases constantes do folheto orientador do culto daquele dia. 

Jerônimo e Adelino (Espíritos), atendendo às exortações do Dr. Bezerra, lá estavam para os estudos ligados à caridade. Haviam escolhido começar por um templo religioso de orientação católica, porquanto, certamente, no ambiente da fé encontrariam as referências à virtude em foco, para que a apreciassem em profundidade.

A um canto da nave, acercando-se de um casal que, despreocupado com a cerimônia, observavam um mural quadriculado colocado sobre um cavalete, encimado pelo título escrito em letras garrafais: Doadores do Piso da Igreja.

Falando aos sussurros, a mulher dizia ao esposo, ambos já na casa dos cinquenta:

- Meu bem, olha só, os Oliveira doaram dez mil. Que coisa pouca. São uns muquiranas, isso sim, imagine...

- É, querida, tirar dinheiro dessa gente não é fácil. Eles são muito financistas. Veja a família Barreto. Essa já é um caso de ostentação. Doaram trinta mil e estão em destaque no quadro.

- Como é que vamos fazer para não ficar atrás, querido? Não podemos deixar de figurar nesta tabela de benfeitores. Afinal, tudo bem que Jesus andava descalço, mas a sua igreja está se esmerando em colocar granito de primeira no piso. A gente está sempre sendo observado por aquilo que aparece. Nossa demonstração de fé não pode ser menor do que a deles, senão vão pensar que estamos mal das pernas. Além do mais, a gente sabe que quem dá aos pobres, empresta a Deus, não é mesmo?

- Olha, Mariana, já sei o que fazer para conseguirmos desbancar os Barreto lá do alto, assumindo o lugar deles. Vou conversar com Dom Barcelos depois da missa e ver se, fazendo uma doação de cinquenta mil dividida em cinco parcelas de dez, ele nos coloca lá no alto. O que você acha?

- Bem, meu querido, creio que só se o Bispo for muito exigente ou estiver querendo proteger os Barreto. Do contrário, acho que ninguém poderá nos negar a posição principal. Mas, como é que você vai fazer essa doação? Vai tirar das economias que estamos juntando para a nossa tão sonhada volta ao mundo no ano que vem?

- Ora, Mariana, pensa que eu nasci ontem? Claro que não. Jônatas, nosso amigo deputado, está organizando uma "boquinha" no governo para nossa empresa, porque ele controla uma verba que precisa ser gasta até o final do ano. Caso não o faça, terá que devolver o dinheiro aos cofres públicos. Então, vamos usar nossa empresa para validar essa transação, recebendo e dando-lhe uma parte do valor para a sua caixinha pessoal. O que ficar com a gente, colocamos no rol das despesas ou nas doações para a caridade, e assim, além de fazermos o bem, causamos inveja nesse povo metido que gosta de aparecer. Jonatas conta com a gente e a gente conta com ele. E, ao final, é Jesus quem acaba se beneficiando mesmo, com um granito dos melhores para o chão de sua igreja.

- Eita, Lucas, você sempre dando nó em fumaça, meu querido. Os Barreto vão ficar loucos da vida.

E a conversa seguia por outros comentários pouco elevados, enquanto a cerimônia chegava ao final, com a despedida dos presentes e o casal  Ribas dirigindo-se ao gabinete do Bispo Barcelos, para os entendimentos à organização do tão "generoso" ato de caridade. No dia seguinte, o nome da família Ribas estava no topo da lista, estimulando a corrida para a demonstração de grandezas e vaidades, orgulhos sociais e competições mesquinhas, sob o título de caridade. O próprio bispo conhecia as mazelas humanas e delas se valia estimulando  esse clima de disputa entre as vaidades para que, ao final, a catedral fosse a maior beneficiada. Da mesma forma, o bispo esperava que a indignação dos Barreto gerasse uma outra doação de mais alguns milhares de reais e, assim, conseguisse manter as luxuosas reformas da catedral, com o mármore e o granito em detrimento da fome dos infelizes. 

Jerônimo e Adelino entreolharam-se, compreendendo num relance que não estavam presenciando nada que se aproximasse do conceito real da Caridade preconizada por Jesus. 

(Espírito Lucius-Herdeiros do Novo Mundo-André L. Ruiz)


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