quinta-feira, 20 de agosto de 2020

 O Endereço de Deus

Imaginemos que um gênio das "Mil e Uma Noites" lhe concedesse a satisfação de três desejos.

O que você pediria?

Certamente o conhecimento da Doutrina Espírita, luz abençoada de Deus em nosso caminho, que inspirar-lhe-ia nobre roteiro de realizações.

Mas o homem comum, de visão limitada pela ignorância dos valores espirituais, coração sintonizado com o imediatismo terrestre, certamente optaria por "riqueza", "saúde", "fama", "poder", "prazer", "bem-estar"...

Geralmente as pessoas almejam uma existência sem sobressaltos, nem problemas, com tanta "sombra e água fresca" quanto possível, pois, afinal, "ninguém é de ferro"...

No entanto, se nos concedessem a mesma possibilidade de escolha nos tempos em que vagávamos pelo Continente Espiritual, às vésperas da presente existência, certamente seria diferente.

Em "Ação e Reação", do Espírito André Luiz, psicografia de Chico Xavier, deparamos com ilustrativa experiência envolvendo Druso, dedicado orientador de uma instituição socorrista do Mundo Espiritual.

Prestes a reencarnar, dirige-se a Jesus, em comovente oração, destacando, em dado momento:

"E agora, Senhor, que a esfera dos homens me descerrará as portas, acompanha-me, por acréscimo de misericórdia, com a graça da tua bênção. Não permitas que o reconforto do mundo me faça esquecer-te e constrange-me ao convívio da humildade para que o orgulho me não sufoque. Dá-me a luta edificante por mestra do meu resgate e não retires o teu olhar de sobre os meus passos, ainda que, para isso, deva ser o sofrimento constante a marca de meus dias."

Não raro, mesmo beneficiado pelo conhecimento espírita, enfrentamos um problema "ótico" na apreciação da jornada humana.

Imaginamos que as situações problemáticas e angustiantes são cobranças cármicas, relacionadas com os débitos do pretérito.

Não percebemos que se situam muito mais por abençoados estímulos, a fim de que não nos acomodemos, nem nos transviemos.

Fácil observar que as nossas preces mais sentidas, nossos anseios mais nobres, sustentam-se nos convincentes apelos da mestra Dor.

Lutas e dificuldades do cotidiano inibem nossas tendências viciosas.

Conversei, certa feita, com um companheiro espírita, desses que chegam cheios de boas intenções e logo se afastam, dispensando explicações.

- Então, meu caro, por onde andas? Algum problema em nossa casa ou com você e a esposa? Ambos sumiram sem aviso...

- Não, Richard, não houve nada de grave. Estamos muito bem. Talvez seja esse o problema... Como sabe, quando nos casamos, a vida era difícil. Eu ainda estudava. Ganhava o sustento em emprego precário, ajudado pela esposa que vendia roupas. Logo vieram dois filhos, o primeiro com problemas de saúde. Orçamento apertado, tudo controlado. Nada de gastos supérfluos, passeios, festas ou badalações.

- Lembro bem... Economizavam até o passe do ônibus! Era uma boa caminhada até o Centro...

- Isso mesmo! Não obstante as dificuldades ou até por causa delas, encontrávamos tempo e inspiração para o cultivo dos valores espirituais. Orávamos em família, participávamos dos serviços assistenciais no fim de semana, comparecíamos às reuniões doutrinárias. Nossa vida tinha um sentido, um ideal a ser concretizado... Isso tudo nos dava força e abençoada tranquilidade.

Suspirou fundo e concluiu, melancólico:

- Depois as coisas melhoraram. Comecei a ganhar dinheiro num promissor empreendimento comercial; meu filho superou os problemas de saúde, mudamos para um bairro de classe abastada. Multiplicaram-se compromissos profissionais e sociais. Atividade intensa, sem espaço para as orações em família, o culto, a atividade espiritual... Prosperamos materialmente, mas, tanto eu quanto a minha esposa sentimos que algo precioso, de valor inestimável, ficou perdido...

- Talvez um sentido para a existência, um objetivo...

- Exatamente! Ficou um vazio... Lembro uma expressão popular que define o assunto: "Éramos felizes e não sabíamos!"

Lamentavelmente, não obstante o desabafo, meu amigo ainda não encontrou tempo para retomar os ideais negligenciados. 

Quando o caminho é fácil, esquecemos a bússola do discernimento.

Acabamos nos desviando dos roteiros celestes que, bem sabemos, estão perfeitamente delineados nas lições de Jesus, reverenciado por Kardec no comentário à questão número 625 de "O Livro dos Espíritos":

"Para o homem, Jesus constitui o tipo de perfeição moral a que a Humanidade pode aspirar na Terra. Deus no-lo oferece como o mais perfeito modelo e a doutrina que ensinou é a expressão mais pura da Lei do Senhor, porque, sendo ele o mais puro de quantos têm aparecido na Terra, o Espírito Divino o animava".

Raros se disporiam a repetir a súplica de Druso, esquecidos de Jesus e do significado de sua missão.

Mas estejamos certos de que Jesus não se esquece de nós, permitindo que venham dores, lutas e dificuldades em nosso caminho.

Abençoado propósito inspira o Mestre Supremo:

Evitar que esqueçamos o endereço de Deus.

(Richard Simonetti-O Destino Em Suas Mãos)

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