terça-feira, 11 de agosto de 2020

 A Morte da Gata

As duas meninas, sete e nove anos, brincavam na calçada. 

Nas proximidades, a gata rueira, impossível de ser contida nos limites da casa, como todos os felinos. 

A bichana resolveu atravessar a rua. Um automóvel aproximava-se, veloz. Ela esgueirou-se, rápido. Escapou por um triz, como sempre, valendo-se das "sete vidas" com que o imaginário popular brinda a agilidade dos felinos. 

Certamente gastou a última, porquanto outro carro vinha em sentido contrário e a pobre foi colhida por rodas implacáveis. Em segundos expirava, velada pelas meninas que choravam em desolação, traumatizadas com a violência presenciada, inconformadas com a perda de sua Juju.

- Papai, a Juju cumpriu um carma?

- Não, filhinha. Animais não têm dívidas a pagar. São conduzidos pelas forças da Natureza, sob orientação do instinto.

- Mamãe dizia que era uma criminosa, destruidora de cortinas e estofados!

- Não fazia por mal... Apenas afiava as garras, como todo o felino.

- Podemos orar por ela?

- Certamente! Será como se lhe fizessem um carinho a distância.

- Quando morrermos, vamos encontrá-la?

- Talvez... As almas dos animais não costumam demorar-se no Além.

- Animal também reencarna?

- Sim. Faz parte de sua evolução.

- Gato pode reencarnar como cachorro?

- Sem dúvida, e também em outras espécies, em constante desenvolvimento, ao longo dos milênios.

- Que bom papai! A Juju poderá voltar como filha da nossa Baby!

Algum tempo depois, Baby, a cadelinha, despeja no mundo quatro filhotes.

As meninas encantam-se, particularmente com a menor.

- Veja, papai! Tem a mesma cor de nossa Juju e até os olhos puxadinhos. Deve ser ela!

- Pode ser, filhinha - sorriu o pai, condescendente.

Não seria caridoso contestar a animadora fantasia.

Afinal, não era impossível... Como devassar os meandros da evolução, a progressão das experiências, as espécies a que se liga o princípio espiritual, na longa jornada rumo à consciência?...

- Podemos ficar com ela?

- Se quiserem...

- Vai chamar-se Juju.

- Tudo bem.

Observando o entusiasmo das meninas, conjecturava o pai, com seus botões:

"Ah! Vida abençoada! Sempre a brotar, irresistível, plena de esperanças, sobrepondo-se à desolação da morte!"

(Richard Simonetti-Para Rir e Refletir)

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