quinta-feira, 13 de agosto de 2020

 Fé

Um certo homem saiu em uma viagem de avião. Era um homem que acreditava em Deus e sabia que Ele o protegeria. Durante a viagem, quando sobrevoavam o mar, um dos motores falhou e o piloto teve que descer no oceano. Quase todos morreram, mas o homem sobreviveu agarrando-se a alguma coisa que o conservou em cima da água. Ficou boiando e foi levado a uma ilha não habitada.

Ali, o homem agradeceu a Deus por ter se livrado da morte. Conseguiu fazer uma casinha com galhos de árvores e folhas, para se proteger do mau tempo e dos animais. À noite, outra vez agradeceu a Deus porque se sentia protegido. 

Todas as manhãs, saía para pescar e sempre voltava agradecido, porque a pesca era farta e com isso podia alimentar-se e sobreviver, enquanto aguardava que alguém aparecesse para lhe socorrer. 

Certo dia, porém, ao retornar da pesca, teve grande decepção. Sua casinha estava toda queimada. Caiu em desespero e, chorando, disse:

- Deus! Como é que o Senhor podia deixar isso acontecer comigo? O Senhor sabe que eu precisava muito dessa casa para me abrigar, e o Senhor deixou que ela se queimasse todinha! Deus, o Senhor não tem compaixão de mim?

Nesse momento, alguém lhe tocou no ombro e ele ouviu uma voz dizendo:

- Vamos embora, rapaz!

Ele se virou e, surpreso, viu ali um marinheiro.

- Mas como é possível? Como souberam que eu estava aqui?

- Ora, amigo - disse o marinheiro - vimos os sinais de fumaça pedindo socorro, e o capitão mandou parar o navio e ordenou que eu viesse com um barco para buscá-lo.

Esta história dá bem uma ideia de como costuma ser a nossa fé, a nossa confiança em Deus. Quando tudo nos é favorável e acontece o que esperamos, somos reconhecidos à bondade de Deus e reiteramos a nossa fé em louvores e agradecimentos.

Basta, porém, que um acontecimento contrarie a nossa vontade para que nos revoltemos e nos sintamos abandonados. E aquela confiança que aparentava ser forte, agora duvida da justiça e do amor divinos. Nessa hora, parecemos crianças que gritam, choram e esperneiam porque os pais não atendem aos seus desejos de brincar na rua ou de comprar qualquer brinquedo.

Mas será que Deus é como um pai humano, que pode errar ou mudar de atitude em relação a nós a qualquer momento? Que tem preferências por alguns filhos, livrando uns da morte em acidentes, e outros não; que dá saúde a alguns e doença e sofrimento para outros; que ajuda um time de futebol a ganhar e torce contra o adversário?

Ora, em verdade, somos nós que não compreendemos a ação de Deus. Ele é imutável e comanda o Universo por leis também imutáveis, as quais ninguém pode violar. Tudo está certo, porque Deus, inteligência suprema e perfeita, não iria permitir que alguma coisa ou alguém quebrasse a harmonia de sua obra. O que parece o mal, é apenas uma fase do aprendizado do ser humano, para que possa desenvolver a sua inteligência e os seus sentimentos, e isso foi previsto por Ele.

Analisemos as nossas próprias vidas e veremos como é verdade. 

Um conhecido nosso foi surpreendido pelo câncer.

Revoltou-se e ficou desesperado. Por que logo comigo? - perguntava-se ele. Foi submetido  a cirurgia e internado para tratamento. No hospital, teve oportunidade de conviver com outros doentes em piores condições. Admitiu, depois, para mim, que aquela experiência dolorosa fez com que percebesse o quanto era orgulhoso, que todos somos iguais, e que ele estava distante das pessoas e de Deus.

Deus sabe o que faz. Não devemos nunca blasfemar quando a nossa casa "queimar", porque a fumaça produzida pode ser o sinal de socorro para alguém nos livrar da ilha de sofrimento em que nos encontramos. Não nos esqueçamos, porém, que se Deus faz a parte d'Ele, nós devemos fazer a nossa, confiando sempre e sempre trabalhando no bem.

(Donizete Pinheiro-Contos Modernos em Tempo de Paz)

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