quarta-feira, 26 de agosto de 2020

 Vermelhinho

O orgulho de Joana Pacheco não tinha limite. Mulher de mais idade. Bem de vida. Aparência cuidada. Viúva abastada, vivia sozinha.

Suas atitudes eram comentadas. Andava pela cidade e mal cumprimentava os conhecidos. Vez por outra, falava com alguém mais íntimo, mas sem descuidar da postura empertigada. Em qualquer circunstância, exibia inacreditável arrogância. Queixo erguido. Olhar altivo. Gestos de desdém. Chegava ao extremo de tapar o nariz diante dos necessitados que a abordavam em busca de auxílio. Os raros amigos advertiam:

- Sua atitude é antipática. Trate de mudar.

A viúva, porém, respondia com soberba:

- Sou diferente. Tão diferente, que meu sangue é do tipo mais raro.

Joana continuou a viver assim, até que sintomas incômodos a levaram ao médico. Diagnóstico preciso. Moléstia séria. Cirurgia urgente.

Quando convalescia, ainda no hospital, soube que necessitara de sangue e o doador fora pessoa muito pobre. Ficou nervosa. Quis conversar com o cirurgião. E o diálogo aconteceu:

- Transfusão, doutor?

- Sim, foi indispensável.

- Meu sangue é especial.

- Tivemos o doador certo.

A paciente fechou o semblante e perguntou com empáfia:

- Como é o sangue dele?

O médico, que já conhecia a fama da viúva, levantou-se da poltrona e falou, encerrando o assunto:

- É vermelhinho, como o seu.

(Espírito Hilário Silva-Contos e Crônicas 2-Antônio Baduy Filho)

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