A Carta
Uma carta malcriada, dessas de "acabar com o distinto", terminando com um peremptório "esqueça que sou seu filho!"
A indignação de Lenildo era procedente, embora injustificável a malcriação sob a ótica cristã. O pai envolvera-se com outra mulher e abandonara a família, mudando-se para cidade distante.
O rapaz, com apenas 17 anos, vira-se precariamente promovido a chefe da casa, com responsabilidade de ajudar a mãe a sustentar três irmãos menores. Esfalfava-se numa empresa de defensivos agrícolas, às voltas com reações alérgicas provocadas pelo contato com agrotóxicos, o que exacerbava a revolta contra o desertor.
A carta fora uma explosão, um transbordamento de mágoa. Raivoso, levou-a ao correio, desejando que o pai se danasse. Ao retirar-se, viu num canto do balcão folhetos para distribuição, ali deixados por algum funcionário que estimava ideias nobres. Eram mensagens espíritas. Sua atenção foi despertada por uma que falava sobre o perdão. Impressionou-o particularmente o final:
"Tua mágoa tem a extensão de tua incompreensão. Quem compreende, perdoa. Quem não perdoa é escravo da angústia. Liberta-te!"
Foi água fria na fervura! Arrependeu-se de ter remetido a carta. Talvez a situação não fosse exatamente como imaginava. Fora muito radical... Tentou recolhê-la, mas o funcionário mostrou-se irredutível, afirmando:
- Sinto muito! Correspondência postada é propriedade do destinatário!...
Lenildo perturbou-se, dominado pelo sentimento de culpa. Pensava no impacto que a carta provocaria. À noite não conseguiu dormir. Resoluto, levantou bem cedo, dirigiu-se à rodoviária e tomou o primeiro ônibus.
Após sete horas de viagem chegava ao local onde residia o genitor. Surpresa: era humilde pensão, só para homens. Informou-se do local onde o velho trabalhava. Nova surpresa: era modesto ajudante numa construção, ele que sempre fora empreiteiro.
Encontrou-o envelhecido, possivelmente enfermo, a exibir indisfarçável tristeza. Abraçaram-se emocionados. Pouco depois saíam para o almoço. Conversaram longamente. O pai desligara-se da mulher que o seduzira, mas não tinha coragem de tornar ao lar. Sentia o peso de sua deserção...
Lenildo confortou-o, sensibilizado. Regressariam juntos. Começariam vida nova. A mãe o esperava desde a separação. Orava por ele todos os dias...
Na pensão continuavam a conversação, traçando planos, quando chegou o carteiro. Lenildo adiantou-se e tomou para si a carta endereçada ao pai. Este, curioso, queria tomar conhecimento do conteúdo.
- Não há necessidade, pai. Já lhe disse pessoalmente tudo que escrevi...
Suspirando, aliviado, rasgou-a em muitos pedaços que jogou no lixo, sentindo que com ela ia a sua angústia, derrotada por um impulso feliz de aproximação.
A ira é péssima conselheira, sugerindo ações das quais fatalmente nos arrependeremos, já que nem sempre é possível anulá-las como quem rasga uma carta malcriada, impedindo que o destinatário tome conhecimento.
Imperioso, por isso, conter nossos impulsos, contando até dez, cem, milhares se necessário, até esfriar a cabeça, habilitando-nos a agir com discernimento, a cultivar o dom de compreender.
(Richard Simonetti-Endereço Certo)
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