Comparações
Gerôncio Godói vivia de mau humor. Palavra seca. Fisionomia carregada. Pouca prosa. Com frequência, ficava emburrado longo tempo e por motivos banais. Sua fama de mal-humorado corria em toda a região. Além disso, parecia sempre doente. Sem vigor. Apático. Sem energia. Tal situação piorava mais ainda seu aspecto.
Contudo, apesar da carranca, era comerciante de relativo sucesso. Mercearia pequena, mas sortida. Administrava o estabelecimento com rigidez. Nunca sorria e, quando raramente conversava, era para zangar com os funcionários ou orientar algum cliente. Ficava na frente da loja, atrás de pequeno balcão, de onde fiscalizava todo o movimento.
Irineu, freguês antigo e espírita conhecido na cidade, falava-lhe sempre:
Abra o coração, homem. Mau humor é cólera concentrada. Siga o Evangelho e mude seu interior. É o melhor para os dias vindouros.
Gerôncio escutava calado, mas não escondia a contrariedade.
O tempo passou. Certa vez, quando Irineu foi à mercearia, o comerciante o acompanhou nas compras. Queria conversar. Saber das lições de Jesus e da renovação íntima. Estava preocupado com o futuro.
O espírita deu as explicações. Expôs com clareza o assunto. Foi sincero, às vezes até contundente.
Gerôncio gostou, mas não deu o braço a torcer. Pegou um abacaxi e disse:
Você se parece com ele. É agradável, mas ácido.
Irineu contestou rápido. Tomou um legume na mão e comentou, sorridente:
E você com seu mau humor é amargo como este jiló.
Pela primeira vez, o comerciante sorriu.
(Espírito Hilário Silva-Contos e Crônicas 2-Antônio Baduy Filho)
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