terça-feira, 20 de abril de 2021

 O Desabafo

O confrade Simon, residente na região nordestina, anualmente saía de sua cidade natal a fim de passar suas férias junto ao clã familiar de sua esposa, numa pequena comunidade do interior mineiro. Nesse reduto, fez sólida amizade, granjeando grande admiração por parte dos confrades espiritistas. Simon era notável expositor dos postulados kardecistas. Possuía um rico conhecimento doutrinário e o seu timbre de voz encantava a todos. Sua explanação era cheia de nuanças singulares e isso enchia os olhos do público presente. Sua presença era o bastante para atrair os espiriteiros, livres pensadores e até mesmo pessoas de outras religiões. Não só no meio espírita, mas também na praça pública, junto ao homem comum, Simon, na sua singular expansividade, conquistava a amizade de todos. Enfim, onde se fazia presente habitualmente, um grupinho de pessoas se formava ao seu redor.

No Centro Espírita, Simon afeiçoou-se ao casal Marcondes e daí, quando retornava à cidade mineira, no fim de cada ano, antes de tudo, corria à residência desses amigos. Ficara muito bem impressionado com a vidência da confreira Marcondes e a maneira pela qual ela dialogava com os Espíritos, revelando para terceiros notícias incontestáveis.

Um dia, veio do Nordeste a triste notícia. Aos quarenta e poucos anos de idade, devido a ataque cardíaco fulminante, Simon falecera. Partia para a Pátria Espiritual o amigo de todos.

Mais ou menos cinco anos depois, Simon apareceu à Sra. Marcondes e lhe disse:

  • Cara amiga, estou de volta ao meio… Ficarei junto com vocês nas atividades do Centro. Fiz um curso de dois anos e agora o mentor espiritual, responsável por esta casa, acolheu-me na sua equipe.

Assim, em todas as reuniões do grupo, inclusive no Culto do Evangelho no Lar da família Marcondes, Simon marcava presença. Ele era muito querido pelos adolescentes desencarnados, pois, em algumas comunicações, esses Espíritos prazerosamente diziam serem seus alunos.

Recentemente, deixando transparecer uma leve tristeza fisionômica, Simon desabafou com a Sra. Marcondes:

  • Querida amiga, no Plano Espiritual, a gente trabalha demais e, mesmo assim, somos muito cobrados pelos superiores hierárquicos. Quando acreditamos que as nossas realizações são exuberantes, na hora da avaliação, os superiores amigos enxergam apenas um diminuto óbulo. Outra coisa, na Colônia onde estou filiado, existe um receptáculo especial, individualizado, com a finalidade de registrar as preces de agradecimento proferidas em nosso favor pelos amigos, parentes, simpatizantes, etc. Isso é tão importante que influencia positivamente na apuração do nosso bônus-hora. Pois bem, você acredita que nesse tempo todo de desencarnado, a minha caixinha registrou apenas meia dúzia de preces em meu benefício? Ninguém, nem amigos, nem filhos ou outros parentes se lembram de orar para esse seu criado… Na realidade, sou ainda um simples trabalhador residente no Mundo dos chamados mortos, mas cheio de saudades e carregando um pouquinho do nocivo germe da decepção na intimidade diante desse alheamento dos amigos. Sou ainda carente de afetividade dos velhos companheiros que na Terra deixei…

O lamento quase “santo” de Simon tocou-nos profundamente e confessamos que a carapuça vestiu-nos na medida certinha, já que raramente oramos para os desencarnados que julgamos estar em boas condições espirituais. 

Na questão 665 de “O Livro dos Espíritos”, Kardec, perguntando aos benfeitores espirituais se devemos ou não “rejeitar a prece em favor dos mortos”, esses responderam: “Aos homens, disse o Cristo: ‘Amai-vos uns aos outros’. Essa recomendação contém a advertência para o homem empregar todos os meios possíveis para testemunhar aos outros homens a afeição…”

Pois bem, é natural essa “afeição” que devemos manifestar aos desencarnados. É o justo reconhecimento de nossa parte, não importando que o Espírito esteja em boas condições espirituais. 

Não é que Simon esteja cobrando algo, mas é que esse reconhecimento de nossa parte o ajuda muito.

A grande verdade é que nós, os espíritas, habitualmente, se tomamos conhecimento que o amigo está bem na Espiritualidade, esquecemo-nos de orar por ele. E, até pelo contrário, passamos a pedir sua ajuda para os nossos problemas pessoais. 

Assim, que oremos sempre para os amigos e inimigos desencarnados sem a preocupação de conjecturar se eles estão ou não em condições luminosas.

(Jair R. Oliveira-Crer ou Não Crer)


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