quarta-feira, 28 de abril de 2021

 A Renúncia


Comentava-se, certa vez, nos domínios da Espiritualidade, que um homem rico, cuja fortuna suscitava a cobiça e a inveja dos amigos e de seu círculo social, renunciou a tudo, até aos prazeres da vida, para iniciar nova etapa da existência.

O fato causou mais escândalo do que se houvesse ele se apossado, indevidamente, de bens alheios, pois isso não seria inédito no meio em que vivia. 

Ninguém compreendia o seu gesto de desprendimento, ou talvez, de loucura, como diziam. Estefânio Moura não era homem de atitudes largas ou de sentimentos altruístas.

Conhecido milionário, sagaz e ambicioso, era uma verdadeira águia nos negócios. A decisão de Estefânio explodira como um ato de autêntica insanidade. Incompreensível para aqueles que o conheciam tão bem e para quem já havia padecido em suas garras ávidas de lucros.

Nos dias em que os interesses prevalecem sobre todas as coisas, em que o dinheiro custa os olhos da cara, renunciar aos bens e aos ganhos, como se estivesse apenas a jogar na sarjeta algumas moedas, era uma atitude inacreditável, que merecia ser apreciada por uma junta de psiquiatras. Na cidade, ouviam-se muitas conversas a esse respeito.

“Pois o Estefânio agiu assim”, propalavam, incrédulos.

Vendeu as propriedades e títulos da Bolsa, alienou os bens adquiridos e os herdados, e lavrou um longo testamento doando tudo à igreja.

Ao que se sabe, conseguiu, a troco das doações, envergar um hábito e ingressar num convento, como irmão leigo, para aguardar, na humildade, entre rezas e penitências, o juízo final.

Tudo o que se dizia era verdade. Da autenticidade dos fatos nos davam referência alguns contadores de caso da Espiritualidade, que os coligiam, aliás, nas mais diversas Colônias Espirituais.

  • Estefânio Moura, quando aqui chegou, de volta do plano material, colheu os frutos de tanta magnificência? - indagou um dos que ouviam, interessado, a conversa.

E outro, curioso, demonstrando ainda pouco conhecimento:

  • Ao despertar, após a desencarnação, certamente foi levado para um local de paz e luz? Tanto desapego pelos bens terrenos deve ter resultado num prêmio para o seu Espírito.

Ante o silêncio do contador de casos, perguntou:

  • Pois não foi Jesus quem disse que aquele que quisesse se salvar deveria deixar para trás os bens da Terra?

  • Sim, foi o Mestre - explicou -  Mas assim pretendia incentivar os homens a se apegarem mais aos bens espirituais, olvidando os do mundo e enriquecendo o coração com as virtudes da caridade, do amor, da Humanidade, da abnegação e da renúncia.

Um ouvinte, também interessado na questão, interpelou:

  • O Estefânio, sendo muito rico e conseguido libertar-se das coisas do mundo, não teve o seu mérito reconhecido? Não foi para um plano elevado?

  • O nosso Estefânio até hoje anda por aí, na erraticidade, penando, sem compreender o que aconteceu. E o pior é que, revoltado, grita aos brados, nas esquinas do Umbral, que pregaram uma peça nele, um autêntico “conto do vigário”, Induziram-no à renúncia de tudo para usufruírem dos seus bens, amealhados com tanta garra, esquecendo-se, todavia, dos juros elevados que cobrava, dos seus negócios inescrupulosos, que lesaram até o erário público.

Prosseguindo ante a assistência atenta, esclareceu:

  • O pobre Estefânio foi mesmo iludido, mas por si mesmo, imaginando que, ao doar sua fortuna à igreja, iria assegurar uma cadeira cativa na Mansão do Pai. No entanto, sua fortuna acumulou-se ilicitamente. Ele não se apiedava dos pobres devedores que não conseguiam sequer pagar os juros dos empréstimos. Em seu tesouro acumulavam-se moedas adquiridas com as lágrimas dos semelhantes, por intermédio da corrupção de maus servidores públicos e também com a exploração de negócios escusos. Ao renunciar aos bens adquiridos, já no fim da vida, em vez de seguir a Jesus, despojando-se dos haveres supérfluos em favor dos necessitados, doou-os, por interesse próprio,a uma riquíssima instituição, a fim de garantir-se, reservando um lugar no reino dos Céus. 

Ainda dessa vez, Estefânio realizou, apenas, mais um dos seus negócios.

(Espírito Humberto de Campos-Casos e Coisas, Daqui e Daí…-Heitor Luz Filho)


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