A Renúncia
Comentava-se, certa vez, nos domínios da Espiritualidade, que um homem rico, cuja fortuna suscitava a cobiça e a inveja dos amigos e de seu círculo social, renunciou a tudo, até aos prazeres da vida, para iniciar nova etapa da existência.
O fato causou mais escândalo do que se houvesse ele se apossado, indevidamente, de bens alheios, pois isso não seria inédito no meio em que vivia.
Ninguém compreendia o seu gesto de desprendimento, ou talvez, de loucura, como diziam. Estefânio Moura não era homem de atitudes largas ou de sentimentos altruístas.
Conhecido milionário, sagaz e ambicioso, era uma verdadeira águia nos negócios. A decisão de Estefânio explodira como um ato de autêntica insanidade. Incompreensível para aqueles que o conheciam tão bem e para quem já havia padecido em suas garras ávidas de lucros.
Nos dias em que os interesses prevalecem sobre todas as coisas, em que o dinheiro custa os olhos da cara, renunciar aos bens e aos ganhos, como se estivesse apenas a jogar na sarjeta algumas moedas, era uma atitude inacreditável, que merecia ser apreciada por uma junta de psiquiatras. Na cidade, ouviam-se muitas conversas a esse respeito.
“Pois o Estefânio agiu assim”, propalavam, incrédulos.
Vendeu as propriedades e títulos da Bolsa, alienou os bens adquiridos e os herdados, e lavrou um longo testamento doando tudo à igreja.
Ao que se sabe, conseguiu, a troco das doações, envergar um hábito e ingressar num convento, como irmão leigo, para aguardar, na humildade, entre rezas e penitências, o juízo final.
Tudo o que se dizia era verdade. Da autenticidade dos fatos nos davam referência alguns contadores de caso da Espiritualidade, que os coligiam, aliás, nas mais diversas Colônias Espirituais.
Estefânio Moura, quando aqui chegou, de volta do plano material, colheu os frutos de tanta magnificência? - indagou um dos que ouviam, interessado, a conversa.
E outro, curioso, demonstrando ainda pouco conhecimento:
Ao despertar, após a desencarnação, certamente foi levado para um local de paz e luz? Tanto desapego pelos bens terrenos deve ter resultado num prêmio para o seu Espírito.
Ante o silêncio do contador de casos, perguntou:
Pois não foi Jesus quem disse que aquele que quisesse se salvar deveria deixar para trás os bens da Terra?
Sim, foi o Mestre - explicou - Mas assim pretendia incentivar os homens a se apegarem mais aos bens espirituais, olvidando os do mundo e enriquecendo o coração com as virtudes da caridade, do amor, da Humanidade, da abnegação e da renúncia.
Um ouvinte, também interessado na questão, interpelou:
O Estefânio, sendo muito rico e conseguido libertar-se das coisas do mundo, não teve o seu mérito reconhecido? Não foi para um plano elevado?
O nosso Estefânio até hoje anda por aí, na erraticidade, penando, sem compreender o que aconteceu. E o pior é que, revoltado, grita aos brados, nas esquinas do Umbral, que pregaram uma peça nele, um autêntico “conto do vigário”, Induziram-no à renúncia de tudo para usufruírem dos seus bens, amealhados com tanta garra, esquecendo-se, todavia, dos juros elevados que cobrava, dos seus negócios inescrupulosos, que lesaram até o erário público.
Prosseguindo ante a assistência atenta, esclareceu:
O pobre Estefânio foi mesmo iludido, mas por si mesmo, imaginando que, ao doar sua fortuna à igreja, iria assegurar uma cadeira cativa na Mansão do Pai. No entanto, sua fortuna acumulou-se ilicitamente. Ele não se apiedava dos pobres devedores que não conseguiam sequer pagar os juros dos empréstimos. Em seu tesouro acumulavam-se moedas adquiridas com as lágrimas dos semelhantes, por intermédio da corrupção de maus servidores públicos e também com a exploração de negócios escusos. Ao renunciar aos bens adquiridos, já no fim da vida, em vez de seguir a Jesus, despojando-se dos haveres supérfluos em favor dos necessitados, doou-os, por interesse próprio,a uma riquíssima instituição, a fim de garantir-se, reservando um lugar no reino dos Céus.
Ainda dessa vez, Estefânio realizou, apenas, mais um dos seus negócios.
(Espírito Humberto de Campos-Casos e Coisas, Daqui e Daí…-Heitor Luz Filho)
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