Espíritos Madrugadores
“Não o poder de recordar, sim o poder de esquecer constitui uma das condições necessárias à nossa existência." São essas, leitor, as palavras iniciais de “O Nazareno”, do eminente escritor Sholen Asch.
Admirável essa intuição dos poetas, escritores, músicos, artistas em geral… Aqui vemos um autor, formado na melhor tradição judaica, definir de maneira tão elegante e precisa o esquecimento que desce sobre o nosso Espírito quando reencarnamos. Realmente, para o Espírito que precisa recompor a sua vida e retomar o seu caminho evolutivo, o esquecimento é condição necessária, indispensável mesmo.
E, por mais estranho que pareça, muita gente suicida-se na ilusória esperança de “esquecer” os problemas, as dificuldades, as tragédias, as dores, as dúvidas, as mágoas, a vida, enfim, quando é exatamente nascendo que as esquecemos, e não morrendo… Ao morrer, é que recuperamos a nossa memória integral e damos um balanço no que fizemos e choramos aquilo que deixamos de fazer. Como a vida do Espírito não começa com o nascimento e nem termina com a morte, vamos de uma existência a outra aprendendo e refazendo e errando cada vez menos.
Por isso, no intervalo entre uma vida e outra, paramos para meditar e estudar o plano de trabalho que desejamos realizar no futuro. Auxiliados por amigos dedicados e de profunda sabedoria, traçamos todo um programa, não apenas para a duração do período em que ficamos no Espaço, na condição de Espírito, como ainda em nova existência terrena, quando retornamos a um novo corpo carnal para nele prosseguir o aprendizado. Então renascemos esquecidos, como seres humanos, do passado de lutas e angústias. É bem provável que tenhamos ocupado posições eminentes aqui ou ali, nas Artes, na Religião ou na Política. É muito provável que tenhamos feito uma ou outra coisa mais acertada, mas é seguramente certo que erramos bastante e gravemente. O registro desse passado está inteirinho, sem faltar um iota, em nosso Espírito, mas, como homens e mulheres encarnados, convém que não nos lembremos nem de glórias, nem de dores, a fim de que não se perturbe a nossa disposição de acertar.
Ao renascermos, trazemos no Espírito todo o plano de trabalho elaborado no Espaço, mas como homens não sabemos ao certo em que consiste este programa. Cabe-nos descobri-lo, pela meditação, pela introspecção, ouvindo a voz profunda e serena da consciência.
Custa-nos muito, às vezes, a despertar para essa realidade. Nos anos de formação que vão da infância até a juventude, deixamo-nos, com frequência, levar por impulsos que não atendem ao interesse da nossa condição espiritual. Seres que noutras vidas já viveram existências exemplares, de verdadeiros santos, consomem alguns anos numa busca inútil de rumo. Muitos se deixam fascinar por doutrinas inteiramente errôneas, ou se anestesiam na corrida louca de sensações mundanas e prazeres efêmeros. É que o Espírito, sentindo em si o chamado ilusório da matéria, nem sempre consegue desprezá-lo em favor do seu trabalho maior e mais nobre. Mal acordado para a consciência de ser humano encarnado, sente-se vibrante de vida e vigor. A juventude à sua volta se diverte e busca as emoções do mundo, por que não ele também?
Tenho para mim que assim como o ser recapitula, no campo puramente biológico, toda a sua experiência anterior, também o Espírito passa por todas as suas fases evolutivas. A embriologia conhece bem o fenômeno, e, segundo seus ensinamentos, o embrião vem desde um minúsculo ponto, quase como se fosse uma simples ameba, e vai, por etapas sucessivas na escala percorrida através dos milênios, da fase aquática até a terrestre. Também o Espírito parece percorrer, outra vez, no princípio de cada vida, a sua experiência psíquica.
De repente, um pequeno evento, um gesto, uma palavra, uma dor e eis que se desencadeia nele todo um processo de deslumbramento da realidade escondida. De repente, eis que Francesco di Bernardone se transforma em Francisco de Assis. Está cansado das estripulias com seus companheiros, de serestas e de banquetes. Não mais o atraem as belas roupas e as lindas moçoilas. O jovem mais rico e despreocupado da cidade, o seu “primeiro gozador”, como diz um dos seus biógrafos, para como que fulminado por um clarão imenso, que rasgou o véu de sombras que encobria a verdade.
Não é preciso ter poderes especiais para adivinhar todo o drama daquele Espírito. Não se tornava ele um santo naquele momento. Ele já era santo, no sentido mais amplo, mais divino da palavra e não apenas na sua expressão canônica. As belezas da sua alma apenas dormiam no fundo do ser. Ali estava um grande, um imenso Espírito, experimentado por muitas e antigas encarnações. Talvez até mesmo tivesse palmilhado, ao lado do Cristo, aquelas poeirentas e ensolaradas estradas da Palestina.
Somente aos 23 anos de idade, depois de misteriosa doença, abre-se-lhe a visão para a realidade última. Daí em diante, sua vida é todo um poema de amor, daquele outro Amor, maiúsculo, eterno, puro e alegre, que se multiplica em dar-se, que se enobrece na humildade, que tão facilmente transcende até a espécie humana e se estende a toda a criação, desde o irmão Sol até o mais humilde peixinho.
Seria crível que tudo aquilo, toda aquela torrente de luz pudesse escoar tão generosamente de um coração onde antes não havia luz? Ao contrário, ali estava um Espírito de elevadíssima hierarquia; só faltava um pequeno impulso para se abrirem de alto a baixo os diques que retinham aqueles tesouros de amor e caridade. Despertara Francesco para a sua própria realidade. Descobrira em si mesmo a centelha divina que trazia no fundo do ser. Alcançara o nível que lhe era próprio, resultado legítimo do longo aprendizado, abrigo seguro que construíra ao cabo de inúmeras lutas e rígidas renúncias.
Mesmo assim, com toda aquela imensidão dentro de si, Francesco precisou de 23 anos de vida física para despertar o espírito. Alguns só despertam mais tarde. Passam, antes, por desvarios e descrenças. Extraviam-se pelas veredas da negação, deixam-se capturar pelos artifícios da dúvida, perdem-se nas trevas dos erros mais graves, como se totalmente deslembrados da sua verdadeira condição espiritual. Outros, finalmente, nem chegam a despertar numa existência e retornam ao Mundo Espiritual sem terem conseguido sacudir, na carne, o torpor do Espírito.
Muitos desses levam a vida em aflições incompreensíveis que procuram, cada vez mais, afogar em sensações passageiras. Outros, que trouxeram programas e compromissos, vivem a receber advertências e chamamentos de toda sorte, de variada natureza e origem. Nesta categoria estão, com impressionante frequência, aqueles que se preparam no Mundo Espiritual para o exercício da mediunidade entre os homens. Aqui chegados e esquecidos da tarefa que se impuseram, eles próprios vivem numa angústia permanente, vitimados por dores estranhas que nenhuma radioscopia descobre e nenhum médico pode curar.
Há, finalmente, aqueles que madrugam. Mal começam a despertar a consciência na vida terrena, alumia-se-lhes todo o Espírito das claridades que trazem em si e cedo iniciam o trabalho programado. Se são médiuns, já na adolescência começam o seu exercício. Se trazem missões de caridade, desde o primeiro pão que ganham, começam a partilhar com aqueles que têm menos. Se decidiram cultivar o intelecto para divulgar ideias, já em criança os vemos como que hipnotizados aos livros. Se se destinam ao aprendizado da música, antes que as mãozinhas possam executá-la já sentem no espírito todas as harmonias do Espaço e começam a expressá-la. São muitos os madrugadores, mas nós, que custamos a despertar, redobremos no esforço para que as sombras da tarde não venham encontrar a nossa tarefa ainda pela metade. Vamos trabalhar, amigos, para recuperar o tempo que já perdemos. Quem sabe da próxima vez não vamos também madrugar, para começar a tarefa ainda com a fresca luminosa da manhã?
(Hermínio C. Miranda-Candeias Na Noite Escura)
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