quarta-feira, 6 de novembro de 2019

                                                                 Enquanto é Dia...

Desmanchavam-se as colorações variadas do crepúsculo em céu de outono. Cansada do turbulento trabalho matinal que se prolongara por toda a tarde, extremosa dona-de-casa deu por terminada a jornada diária e nada havia restado a fazer. Assim sendo, procurou a paz do jardim para divagar um pouco o pensamento e descansar...
Enquanto cismarento olhar descia pela paisagem em busca da longínqua linha em que céu e terra se unem sob a forma de horizonte, chamou-lhe a atenção  o vulto adelgaçado de dois meninos que desciam correndo a calçada para tomar um veículo situado ali perto.
Na pressa que iam, o primeiro, tomando a dianteira, recebeu violento empurrão do segundo ao chegarem à porta do veículo, indo estatelar-se logo atrás, no chão. Revidou por sua vez aos socos, murros e pontapés, e, assim, devido à algazarra que se seguiu a tamanha confusão que formaram na disputa, nenhum dos dois tomou o ônibus que, cansado de esperar pelo embarque dos dois indisciplinados passageiros, encetou o rumo da viagem sem eles.
A senhora assestou o binóculo de seu olhar sobre os dois concorrentes ao ônibus que já se afastara, a ver como reagiriam ao incidente. Dizia o segundo:
- Você andou muito rápido! Não quis me esperar. É um mau companheiro... Bem feito que perdeu o lugar...  Reagia o primeiro:
- Você foi covarde! Apostamos corrida para ver quem chegava na frente, mas quando eu estava ganhando, você não soube perder e me atirou ao chão... Bem merece ser castigado.
- Isso é que não – gritava o outro menino.
- Fizemos um trato de voltar juntos da escola, e só porque você ia depressa queria chegar primeiro.
- Mas você me bateu! Você me bateu! – gritava o outro, surdo a quaisquer apontamentos.
A verdade é que ali ficaram até a noite feita, e já não iriam chegar cedo em casa porque haviam se desentendido a caminho.
Assim acontece conosco na via pública da vida também, onde vamos seguindo, lado a lado, rumo à construção do Futuro Melhorado.
Toda vez que nos desentendemos na marcha comum, e a agressão ameaça bailar em nossos gestos de irmãos, o caminho fica anuviado de incertezas, e nem sempre acertamos novamente o comboio da dignidade edificante que nos conferiria o prêmio do regresso ao Lar de Cima.
Portamo-nos como crianças em desavenças, sempre que, às dificuldades de relacionamento nos caminhos de volta ao Bem Supremo, apelamos para a força descaridosa na agressão fraterna, seja esta moldada em atos físicos para maltratar, ou simplesmente em palavras insidiosas que nos levem a cólera por estopim aceso aos canaviais íntimos do vizinho. Alastrada a fogueira do ódio, quanto tempo e mão- de-obra não se fazem necessários a que a calma, única portadora de equilíbrio para que possamos discernir onde está nosso real interesse na marcha, nos ajude a chegar onde queríamos?
Meu filho, de todos os métodos para chegar onde queres, depõe como ineficaz e fora de uso, estes: o revide, o ódio, a força bruta, a raiva que desconsidera, pois a planta do Senhor para trazer a verdade a tuas terras não pode ser cuidada sem o carinho da consideração.
Amaina teus rompantes, poda teus impulsos menos sadios, porque são estes que, assassinos, te levam a pensar em agressão que prejudique a qualquer um, amigo ou contrário.
Sabe, e isso com Jesus, que a maneira de plantar o bem para si próprio é cuidar do bem alheio com a mesma paciência, a mesma consideração e amor com que fazemos a coisa para nós mesmos.
Só assim se cultiva o progresso.
E foi o que a senhora pensou, enxugando as mãos molhadas no avental de serviço, enquanto se recolhia: - Que bobagem, essas crianças! Se um tivesse ajudado o outro a subir na viatura com calma, os dois já estariam bem longe, pertinho de casa... Essas crianças!...

(Espíritos Cneius e Valerium-Falou a Vida-Marilu M. Carvalho)


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