"Bem-aventurados os que têm puro o coração, porquanto verão a Deus" (Mateus, 5-8)
O Espírito Públio, ao comentar o capítulo VIII de "O Evangelho Segundo o Espiritismo", assim se expressa:
“Estrutura cruel porque baseada na insinceridade, as igrejas de todos os credos estão cheias de bandidos fantasiados de adeptos fiéis, à espera da absolvição ou da bênção para que sigam furtando o semelhante, roubando o povo, comprometendo o progresso das comunidades no rumo da própria elevação. Longe de ser o tribunal puro da consciência, os diversos altares do mundo da crença se transformaram em balcões onde negociatas se realizam entre os representantes da fé e os interessados em seu financiamento, pagando, a peso de ouro, a absolvição da própria consciência, como se isso pudesse vir de fora para dentro. Daí porque Jesus combate tanto as noções de um mundo mentiroso, perante o qual as convenções e os interesses são capazes de modificar os princípios milenares de Justiça e Honradez. E, dessa maneira, alertou para a ocorrência daquilo que se convencionara chamar de “escândalo”, como sendo a conduta incompatível com os princípios elevados e que, acomodada sob o tapete das convenções e dos interesses, vez por outra aflora com seu fétido odor e suas características purulentas, causando espanto, nojo, repulsa, pessimismo e descrença na maioria ingênua das pessoas. Afirmara que o escândalo haveria de vir, na noção lúcida daquele que afirma que, um dia, todas as ilusões deixarão cair o seu véu e a verdade virá brotar ante os olhos atônitos daqueles que se imaginavam inatingíveis. No entanto, solicita aos que o escutavam que não fossem eles os que causassem os escândalos, já que todo aquele que se conduzisse dessa maneira haveria de estar na rota do desastre, exposto a ele por si próprio. Daí seria preferível privar-se daquilo que põe em risco ou serve de tropeço para a queda dos outros do que manter-se na defesa de tais situações e terminar consumido nas suas dores e frustrações. No entanto, advertia que os escândalos não se verificavam segundo os critérios humanos, sempre recheados de preconceitos e interesses, que hoje condenam aquilo que a conveniência e a cobiça permitem amanhã como coisa natural e vice-versa. Jesus assevera que muitas coisas que os homens perdoam, Deus condena, e que muitas coisas que os homens condenam, Deus releva. Mais ainda, afirma que os puritanos, os moralistas de plantão seriam preteridos, se não fossem sinceros, em face dos pecadores sinceramente arrependidos que, tendo escutado o chamamento mesmo tardiamente, nele acreditaram. A grande peça teatral que o homem está encenando terá o seu fim e, diante de toda a plateia, serão cerradas as cortinas para reconduzir cada ator à realidade de sua própria nudez moral, motivo pelo qual Jesus advertia para que cada um fosse como uma criança, sem malícia, sem fingimentos, sem ideias preconcebidas, única forma de se protegerem dos efeitos negativos oriundos de uma conduta mentirosa e insincera diante das leis do Universo.
O pecado não está apenas no gesto que prejudica alguém no exterior. O pecado está no sentimento que o alimenta, tenha ele sido exteriorizado ou não, tenha ou não produzido efeitos nocivos a alguém.
Aquele que fez o exterior também fez o interior e nos conhece perfeita e profundamente. Daí a necessidade de estar puro o coração, como única defesa do ser humano diante do peso de suas culpas e da inferioridade de suas condutas.
A pureza de coração se constrói um pouco a cada dia. Disciplina de alma, disciplina de vontade, disciplina de conduta representam o trilho firme que mantém o trem na direção de seu destino seguro. Qualquer desvio significa novo acidente, nova interrupção e maiores esforços para o recomeço. A pureza que se aconselha no Evangelho é o caminho mais curto entre o coração e a felicidade que se busca. Aos espertalhões que dela fazem mofa e a ridicularizam vivendo à sombra da velha concepção de que o mundo é dos espertos, o tempo se incumbirá de reconduzi-los à lucidez através dos cânceres de todos os tipos, das dores de todos os matizes e das decepções de todas as naturezas”.
(Espírito Públio-Relembrando a Verdade-André Luiz Ruiz)
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