Pequenas Lâmpadas Humanas
Fascinante é o serviço espiritual a se desdobrar no Além. Da infância à velhice e desta à desencarnação de toda ordem, notamos complexo plano de assistência, cuja elaboração e execução guardam sua origem nos Altos Cimos da Vida Infinita.
Estas reflexões são constantes em nossa mente, favorecidas pelas experiências que nos enriquecem o coração devedor e ainda impuro.
Adentrava eu, ao lado de meiga servidora da Evangelização Infantil entre as faixas superiores e os núcleos de atividade espiritista na Terra, vastos jardins que compunham determinada zona de Nosso Lar. Sorrisos iluminados, gargalhadas sonoras, muito brilho nos olhinhos e o corre-corre por entre relva e flores é o que víamos ali, compondo um hino de exaltação à candura, à ingenuidade descuidosa da meninada.
Sentia-me desmanchar, tal a vibração de sonho e ternura que nos dominava.
- Ah!... - dizia a mim mesmo - que bênção, que descanso, que suavidade!..., quando a doce Raquel salientou:
- Por aqui é invariavelmente assim, mas a realidade na Terra é bem diferente para a maioria das crianças!...
Identificando meus pensamentos, a irmã da infância interrompida no mundo me fez recordar o número incontável de meninos e meninas que sofrem, sem pão, sem teto, sem agasalho, sem afeto dos próprios pais - tantas vezes envolvidos com suas paixões nas valas tristes e destruidoras do egoísmo.
- São lâmpadas singelas que nós, os adultos, devemos acender com a energia do afeto! - considerou, feliz, a encantadora seareira.
Retomando novamente a palavra, asseverou, grave e segura:
- Sim, meu irmão; a infância, como promessa divina, não logra o serviço iluminativo sem a cooperação das bases humanas que a recebem por floração abençoada de esperança e renovação.
Atento à conceituação justa da companheira, recordei-me de humilde tarefa que, ao lado da esposa querida e de amigos valiosos, desenvolvera em região de muita miséria e de muita dor, quando, se revelando consciente do que eu pensava em silêncio, me esclareceu:
- Não ignoramos a tarefa dos evangelizadores no planeta; em verdade, todos eles, do mais acanhado em domínio didático ao mais aquinhoado no domínio da ciência da educação, recebem, invariavelmente, assistência do Alto, pois o serviço de amor a que se dão é, por si, poderoso apelo ao coração do Céu.
E provando-me conhecer os detalhes de nosso apagado esforço de outrora, na região já citada, explicitou, nobre e carinhosa:
- Para que você considere, palidamente, o valor do serviço iluminativo da Evangelização na mente infantil, convido-lhe a rememorar um petiz de seis anos incompletos que naquela Casa de Assistência chegou ao lado da mãe embriagada e grávida, pedindo recursos alimentícios...
Por um mecanismo próprio da Vida Espiritual, vi, na tela mental, com prodigiosa clareza de detalhes, o episódio narrado por Raquel.
Após sucinto relato da benfeitora sobre as circunstâncias em que a diminuta e infeliz família citada vivia, a partir daquele dia rememorado, assistida de nosso Núcleo de amor e caridade, continuou:
- Veja bem, Almir: no oitavo sábado de convívio de Evangelizadores da casa, o pobre menino recebeu a lição da Parábola do Bom Samaritano, que foi explorada pelos instrutores em seu aspecto de caridade e amor aos semelhantes. Neste mesmo dia, à noite, a mãe do garoto conseguiu trocar parte dos alimentos recebidos do grupo por um garrafão de aguardente, embriagando-se até quase à exaustão. Alta noite, uma saraivada de batidas na porta do casebre fez despertar o garoto, que a abriu e se deparou com o homem amasiado com sua desequilibrada mãe e pai do bebê que ela ainda gerava. Cumprimentou-o friamente o homem e se dirigiu, sombrio, até a cama da mulher esbravejando:
- Como é, mulher, onde está a cachaça?
Ao que ela, atormentada pelo álcool, respondeu:
- Você não merece nada; não me dá nada; não é homem para mim... Vá pro inferno!...
Quando o parceiro irresponsável, ferido e desprezado em seus desejos, levou a mão à faca enferrujada disposta em pequeno cômodo que servia de cozinha, sala e quarto, para irrefletidamente desferir um golpe sobre a mulher, a assustada criança olhou firme para os olhos injetados do padrasto e cantou, como pássaro desesperado e sem ninho de amor:
- Ó Jesus, nosso Senhor!... ensina pra ele que a caridade é nosso dever, em nome de Deus!... não deixa ele matar a minha mãe!...
Ao influxo das palavras sinceras e inspiradas do petiz, que mal sabia da vida, o agressor sentiu um golpe no peito, rodopiou sobre os pés e, de olhos arregalados, saiu para a rua, sem dizer palavra.
Esta, Almir - concluiu a experiente orientadora da infância - é uma história das muitas que existem por aí, sem desfecho trágico, graças à claridade de uma pequena lâmpada humana, acesa pela boa vontade dos que procuram seguir Jesus!
(Espírito Almir Fontoura-Notícias do Bem-Wagner G. Paixão)
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