A Decisão Acertada
O senhor está bem acomodado, seu Cornélio?
Estou sim, irmão Simplício, não precisa se preocupar.
Bom, então vou contar hoje a história de seu Joaquim da venda.
O homem chegou aqui neste alto de serra já com os vagalumes acesos voando por aí e disse
Sua benção, Vô Simplício. Sei que é costume trazer um agrado para o senhor, mas ando com tanto problema na cabeça que ela agora está até falhando.
Não se preocupe não, seu Joaquim, outro dia o senhor manda alguém trazer o agrado.
Pois é, Vô Simplício. Vim aqui para ver se o senhor pode me ajudar com meus problemas. Veja o senhor que minha mulher Camélia, a terceira, não para de implicar comigo, não posso nem fazer uma caçada que ela implica. E tem mais, minha roça de milho deu praga, os carrapatos não dão sossego pra minhas vacas que já estão escondendo o leite, entrou bicho no galinheiro e comeu dez galinhas poedeiras e as mais gordas, o eixo da minha roda d'água quebrou, o córrego do monjolo está seco e estou sem água para ele quebrar o milho na feitura do fubá. É muita coisa não é, Vô Simplício? E tem mais que não carece contar, sem falar no mal do corpo que estou sentindo. Estou cansado, meu velho, vê se o senhor faz aí uma oração ou me ensina uma simpatia para acabar com os problemas!
O filho dê licença um pouco, que vou buscar conselho com o Espírito Pai Juca, que é meu anjo da guarda.
Depois de conversar com Pai Juca, falei pra ele:
Olhe, meu filho, Pai Juca, essa alma santa que ajuda este velho nos conselhos, mandou ensinar uma simpatia muito boa pra você. Está vendo essa trilha subindo o morro até o pico?
Estou sim, meu velho.
Pois é. O filho sobe a trilha a galope até virar a crista do morro e pode escolher se vai com os olhos abertos ou tapados, aí esses problemas que o filho tem vão sumir todos.
Mas, Vô Simplício, se eu tapar os olhos não vou ver o caminho!
Você quem sabe, meu filho, muita gente que subiu sem tapar os olhos não conseguiu virar a crista do morro; no seu caso, acho até melhor ir com os olhos destapados.
O homem, seu Cornélio, subiu o morro em um galope só e estacou lá na crista. Ficou lá parado um bom tempo; depois voltou e falou:
Obrigado, Vô Simplício, mas vou tentar resolver os meus problemas; a simpatia do senhor é muito forte para mim.
O homem desceu a serra cantando que nem sabiá laranjeira no pé de jabuticaba.
Mas, o que há lá no alto daquele morro, irmão Simplício, que fez o nosso Joaquim ficar satisfeito com a vida?
Nada não, seu Cornélio. O morro até acaba lá na crista, depois de uma ribanceira, só um buraco de uma légua pra baixo.
Fico a pensar, irmão Simplício, na maneira simples e objetiva que seu anjo da guarda encontrou para dizer que a Terra é um local por onde transitamos, vivendo os benefícios e compromissos adquiridos no ontem, e não um ponto de chegada, e que não há como fugir dos compromissos e deveres que nos competem, sendo eles sempre consequência de nossas atitudes e ações. Somente a fé pode nos fortalecer para suportarmos com paciência e resignação o peso do madeiro que nos compete, mas preferimos enxergar nossas dores, lutas e dificuldades mais como castigo do que como recursos necessários ao nosso aprendizado. Os compromissos do homem se extinguem com a morte do corpo, mas os do Espírito…
Meu anjo da guarda sabe muito, seu Cornélio; ele me falou que todo conselho dado pros outros deve ser aproveitado por mim, pois ainda tenho muito para aprender, por isso ainda estou de passagem pela Terra. Mas o filho já está de saída?
Estou sim, meu amigo, mas em dois dias volto para continuarmos nosso aprendizado.
Então o senhor faça um esforço e chegue pela manhã para escutar meus passarinhos cantarem no pomar.
(Espírito Cornélio Pires-Histórias Divertidas do Vô Simplício-Alceu Costa Filho)
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