O Exemplo da Fé
Retornei à casa do irmão Simplício e ao me aproximar notei que havia algo errado, pois não saía fumaça pela chaminé, estava tudo em silêncio. Bati palmas como de costume e o irmão Juca veio me atender.
Como vai, amigo Cornélio? A paz de Deus para o senhor.
Obrigado, meu irmão, para você também. Mas, me responda, por onde anda meu amigo Simplício?
Está aí dentro ajoelhado em cima de uns caroços de milho! Ele afirma estar fazendo penitência!
Como assim, irmão Juca? O que o levou a isso?
É melhor ele mesmo contar para o senhor. Pode entrar, o amigo vai encontrá-lo ajoelhado aí na sala.
Irmão Simplício, dê licença para chegar?
À vontade, seu Cornélio, minha penitência já está quase paga, vamos chegar.
Penitência por quê, meu irmão?
Ah, seu Cornélio, apareceu por aqui de passagem uma comadre que eu não via há muito tempo e pediu pousada para ela e o filho por dois dias e uma noite e eu não dei não! Na hora pensei: “minha casa é pequena, onde é que vou colocar a mulher e o moleque?” Pra dormir eu dava um jeito, pra comer também, mas como iria atender as pessoas que me procuram? Não ia ter jeito, não é mesmo? Mas depois que ela partiu, o Espírito meu anjo da guarda me falou: - “Ó meu velho, como é que pode fazer isso? Mandou embora a coitada com o filho sem dar acolhida! E a consciência, meu filho? Nós temos de dar exemplo do que a gente fala, os olhos de Deus estão em toda parte”.
Ele estava com a razão, não é seu Cornélio? Então eu mesmo resolvi a penitencia e falei pra este velho burro aqui: “você vai rezar cem ave-marias ajoelhado em cima de um punhado de bago de milho, aí então você pagou o pecado”. Os joelhos estão doendo, seu Cornélio, mas a consciência está mais branda! O senhor espere mais um pouco que estão faltando só três ave-marias, depois conversamos. Tenho um caso pra contar pro senhor. Mas o que foi? O que está incomodando o senhor?
Meu querido amigo, ontem aprendemos que nada substitui o suor na reparação de nossos erros. A penitência não vai isentá-lo de compromissos futuros oriundos da decisão que tomou, negando abrigo a quem lhe bateu à porta. É preciso estarmos atentos em não utilizar todo o nosso tempo na divulgação de nossa fé, para que não nos falte algum para praticá-la. Pregar pelo nosso exemplo e pela prática nos garante melhor colheita do que pregar somente por palavras.
Meu amigo levantou-se, enxugou duas lágrimas e comentou:
O senhor fique à vontade, hoje fiz igual a S. Pedro, mas só neguei Jesus duas vezes. A primeira quando não dei abrigo para a comadre e a segunda quando tentei comprar o perdão dele pagando com a penitência, mas a terceira eu não vou negar, não! Acho melhor o senhor voltar amanhã pra prosearmos. Meus joelhos estão doendo igual a minha consciência e vou deitar um pouco. Até amanhã, seu Cornélio!
(Espírito Cornélio Pires-Histórias Divertidas do Vô Simplício-Alceu Costa Filho)
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