O Bem Todos Os Dias
A par das exortações quanto aos imperativos da reforma íntima, não se cansam os orientadores espirituais de enaltecer o valor de nosso esforço em favor daqueles que, por força de suas provações, atravessam existência atribulada.
O treino da caridade, mais do que simples recurso para aquisição de créditos espirituais, é fator indispensável de renovação para toda a Humanidade, pois, enquanto o número de indiferentes constituir esmagadora maioria, persistirão as causas geradoras da miséria e do infortúnio.
Todavia, as criaturas humanas permanecem, ainda, distanciadas da reflexão e do espírito de sacrifício, indispensáveis à vivência da verdadeira caridade.
Praticamos o bem ocasionalmente, apenas nas raras oportunidades em que nos sentimos dispostos e plenamente favorecidos pelas circunstâncias. Sempre que exija mais do que nos sobra ou implique em trabalho não previsto, recusamos o ensejo.
Encontramos o miserável seminu, vestes em frangalhos, e lamentamos: “Coitado! Infelizmente não tenho nada para lhe dar… minhas roupas são todas novas…”
Diante do indigente que pede um prato de comida em nossa porta, informamos: “Sinto muito, meu velho, mas já jantamos e não sobrou nada…”
Às vezes, num rasgo de generosidade, que pode também significar pressa em livrar-se do importuno, abrimos os bolsos e damos algum dinheiro àquele que nos procura. Mas a simples esmola, não raro, irá tão somente alimentar vícios como o álcool e o fumo, agravando os males do infeliz.
O pior é que nos acostumamos a ver miséria e sofrimento e, embora nos sintamos sensibilizados diante dos casos mais dolorosos, isso não implica em outra preocupação além daquela que temos com nosso bem-estar e o de nossa família.
Cuidamos com carinho da alimentação de nossos filhos, sem medir sacrifícios para dar-lhes mesa farta, e ignoramos aqueles que morrem de fome…
Passando pelo mendigo, filosofamos: “Que provação, meu Deus! Quantos males terá praticado esse infeliz para ser colhido em tal situação!...” - e continuamos rumo ao cinema ou ao passeio, sem cogitar sequer de resolver seus problemas imediatos…
Gastamos energias e dinheiro em noitadas alegres, considerando que é preciso distrair o espírito, mas evitamos avaliar quantos benefícios poderíamos prestar se aplicássemos tais recursos na distração de socorrer os humildes…
Se o familiar adoece, deixamos até mesmo o trabalho a fim de permanecer ao seu lado, mas não admitimos a possibilidade de renunciar a alguns minutos de descanso para visitar no hospital aqueles que, sem família ou amigos, anseiam por uma palavra de incentivo e bom ânimo…
Em verdade, não podemos, por enquanto, deixar prazeres e conforto, pois muito longe estamos da virtude de um Francisco de Assis ou de um Bezerra de Menezes.
Mas se não podemos ser o máximo, por que não ser o mínimo? Se não podemos dedicar todas as horas ao serviço ao próximo, condição do verdadeiro cristão, que sabe que tanto mais feliz será quanto menos pensar em si, por que não dedicar-lhe pelo menos uma hora por dia?
Para tanto é preciso que nos disponhamos a dar não apenas ocasionalmente, mas sempre; não apenas o que nos sobra ou é inútil, mas também o que nos serve; não apenas quando seja fácil, mas também quando exija esforço e perseverança. Então, estaremos no caminho certo.
Há muito que se fazer em albergues, orfanatos, berçários, hospitais, creches e outras obras espíritas que carecem de colaboradores dispostos a arcar com as responsabilidades de direção e manutenção.
Não se pode admitir o adepto da Terceira Revelação divorciado do trabalho social. E se grande tem sido a contribuição da família espírita nesse trabalho edificante, ainda que uma minoria o desenvolva, imaginemos quanto poderia ser feito, se “todos” nos dispuséssemos a servir nossos irmãos!
Assim procedendo, não faremos favor a ninguém. Na realidade, estaremos apenas realizando o mínimo indispensável para que vivamos em paz.
Somente quando nos dispomos a abrir o coração, dando de nós para os outros, é que temos condições para receber as bênçãos de Deus.
(Richard Simonetti-Para Viver a Grande Mensagem)
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