A Falta
Carlota Mendes tornara-se realmente a benfeitora dos pobres. Mulher de posses. Prestígio social. Posição elevada.
Era admirada pela obra assistencial. Toda semana visitava os bairros mais carentes da cidade. Caminhonete abarrotada de sacolas. Motorista. Empregados. De casa em casa, com roteiro previamente determinado, distribuía alimentos, providenciava roupas e calçados, aviava receitas médicas. Contudo, não descia do carro, apenas acenava aos beneficiados.
Apesar da dedicação à beneficência há longo tempo, Carlota não vencera o orgulho. Só dava atenção aos iguais. Evitava a presença de pessoas de condição social diferente.
Naquela manhã, ficara sabendo que uma das assistidas tinha perdido o filho, em acidente trágico, havia poucos dias. Casa ainda cheia. Familiares. Parentes de fora. Visitas. A família recebeu a doação em dobro.
Contudo, a generosa benfeitora não foi até lá. De longe, sem sair da caminhonete, acenou aos parentes, como fazia sempre. Um dos empregados, porém, aproximou-se da dona da casa e iniciou a conversa.
A doação chegou na hora - comentou ele, sorridente.
Sempre chega - retrucou ela, agradecida.
E o diálogo prosseguiu:
É o suficiente?
É, mas faltou o que mais preciso.
O funcionário ficou surpreso, pois a doação fora abundante e completa. Perguntou, intrigado:
O que a senhora mais precisa?
E a mãe, olhando, resignada, para a benfeitora que se afastava, respondeu com voz tristonha:
Hoje, só me bastava um abraço.
(Espírito Valérium-Contos e Crônicas 2-Antônio Baduy Filho)
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