Lei de Compensações
Há muitos anos, teve lugar, numa Vila sem nome, à margem da Estrada de Ferro Bragantina, em Campo Limpo Paulista, a história que segue.
Manhã de sol. Os poucos moradores do local são despertados por súbito alvoroço na rua.
Que será… isso? - interrogam-se, papai e mamãe, atentos, na sala de jantar, enquanto nos servíamos do café.
E, rápido, eu e os manos corremos à porta, que se achava aberta, movidos por grande curiosidade.
Era um grupo de rapazelhos a perseguir, a pedradas, um cão minúsculo e inofensivo.
Fora daqui, vira-lata!
Morra, miserável!
Esse bicho é hidrófobo! Está babando…
… e cheio de sarna!
Acabemos com ele!
Tais os berros daquela horda de canalhas…
A pobre vítima, ante o cerco feroz, procurava defender-se das pedras, encolhida no ângulo de um muro próximo. E gemia, de olhar súplice, como se estivesse a rogar comiseração aos malvados. Estes, porém, não se detinham no desejo de matá-lo…
Até que… - Xô! Xô!... Cambada de moleques maus! Deixem esse cachorro em paz! Saiam! Saiam! Quero ele para mim!
Desta vez, os gritos partem de um homem robusto e gigantesco. É ele um doido, conforme supõem todos na aldeia.
Eh… pessoal! É Afonso, o idiota! E vem bravo, contra nós! Fujamos! - avisa um dos meliantes.
Logo após, vendo-se a sós com o cão, Afonso o acolhe em seus braços e leva-o a salvo da crueldade dos garotos… E desaparece, longe, chorando, chorando…
Dois meses após esta cena, numa tarde tranquila, diversas pessoas aguardam, como sempre, o último trem na estação, junto a uma cancela, a fim de saudar os viajores.
Escutem… a locomotiva! - exclama, inesperadamente, uma matrona assustada.
Por que apita desse modo… sem cessar? Estranho!
O condutor da máquina deve estar inquieto com algum problema… - observa outra senhora.
Que há? Que há? - acodem os demais circunstantes, trêmulos de emoção.
Olhem! É Afonso, a caminhar sobre os trilhos, sem perceber o comboio atrás de si! E dança, fazendo festas ao cãozinho aconchegado ao peito!
Oh… Céus! Ele é surdo! Infeliz! As rodas vão estraçalha-lo! E não podemos evitar o desastre! Ai! Ai!... Afonso! Acorde! - bradam, todos, em desespero...
Nisto… - Um milagre! Espiem! - aduz um mancebo magro, a bater palmas, eufórico.
O cachorro, pressentindo, talvez, a morte, saltou-lhe das mãos, e Afonso, ansioso de apanhá-lo, saiu a tempo, da via férrea!
É mesmo! Que alívio! - é o voto geral.
Eu também me alegro. Contudo, amigos, sou de opinião que nenhum prodígio houve no caso… - O que vimos, foi o anúncio da Lei de Compensações. Afonso resgatou o cachorrinho da fúria de um bando de pimpolhos inconscientes, e o animal, a seu turno, serviu de meio para livrar Afonso da tragédia prevista!
Pesado silêncio aprova o raciocínio do lavrador que, ajeitando um saco de batatas e cebolas, às costas, despede-se, de retorno ao próprio lar.
Cabe-nos dizer que fomos testemunha deste episódio e ainda, desde aquela data, os moleques da zona em apreço, nunca mais se atreveram a maltratar os cães que surgiam por lá…
(Francisco Pessolano Júnior-Contando Histórias)
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