A Balança do Coração
Relata-nos uma lenda egípcia, que, certo dia, Satni e seu filho Senosíris estavam no terraço de sua casa, quando ouviram gritos. Curiosos, correram para ver o que estava acontecendo e, então, notaram que se tratava da passagem de um cortejo fúnebre. Uma parelha de vacas puxava o carro que conduzia o corpo, carpideiras profissionais choravam, gemiam e gesticulavam teatralmente, levando as mãos à cabeça, em demonstração de desespero, enquanto os membros da família pranteavam o ente querido morto.
O falecido era um homem muito rico, senhor de muitas propriedades e detentor de considerável poder. Atrás do cortejo, vinham seus servidores, trazendo alimentos, utensílios domésticos, mobílias, roupas, jóias de ouro e colares colocados em bandejas. Todas essas coisas desceriam à tumba juntamente com o sarcófago.
Observando um pouco mais, Satni viu que atrás daquele cortejo fúnebre vinha um outro. Era o de um pobre miserável, simplesmente enrolado numa esteira. Nem a família nem os amigos choravam por aquele homem, que seria jogado num buraco, cavado nas areias do deserto.
Então, Satni virou-se para seu filho e comentou:
Senosíris, quando eu morrer, permita que eu seja levado ao túmulo com dignidade, e não enrolado numa esteira.
Espero que você parta como aquele pobre homem - respondeu o rapaz.
Indignado com a resposta do filho, Satni exasperou-se:
Como pode um filho falar assim ao seu pai? Desejar-lhe destino tão inglório?
Sei o que estou dizendo, meu pai. Venha comigo, que vou mostrar-lhe o lugar ocupado por aqueles dois e muitas outras coisas.
Senosíris pegou o pai pela mão e os dois seguiram para a rua. Atravessaram o Nilo e tomaram o caminho das montanhas, a oeste. Num determinado local, os lábios do menino pronunciaram umas palavras estranhas e a fronteira que separa a dimensão material da espiritual se descortinou ante seus olhos, desvendando-lhes a sala das Duas Verdades, onde estavam os deuses que julgavam os mortos que ali chegavam. No centro desta sala havia uma balança, onde, num dos pratos, era colocado o coração do morto; no outro, a pluma de um avestruz. Nela se pesavam méritos e deméritos da pessoa a ser julgada. Ai daqueles que tinham feito mais mal do que bem, felizes os virtuosos de coração leve, pois eles permaneceriam no reino de Osíris.
Senosíris - murmurou Satni - Estou maravilhado e perplexo. Explique-me, quem é aquele homem vestido de linho branco, perto de Osíris?
É aquele homem pobre que você viu enrolado numa esteira, por quem nem a família nem os amigos choravam. Seu coração não pesou na balança. O tribunal decidiu que, em vista de suas boas ações e de seus méritos, ele receberia os trajes do homem rico, daquele cortejo luxuoso. Este último havia cometido tantas maldades, que o seu coração, de tão pesado, quase quebrou o prato da balança. Entende agora, pai, por que eu lhe disse que esperava que você partisse como aquele pobre homem?
Dentro de uma visão ilusória e materialista, investimos, muitas vezes com grande sacrifício, na aquisição de um jazigo, que é uma sepultura mais sofisticada, mas que de modo algum fará diferença na ação da natureza durante o processo de decomposição da matéria. Do mesmo modo que aquele corpo depositado num cemitério público, este também passará pelos mesmos processos de transformação orgânica, sem diferença alguma. Não importa se a urna funerária é ricamente ornamentada, ou de um padrão mais simples. A diferença está no Espírito!
Como estamos nos preparando para retornarmos à vida além-túmulo?
Estarão nossos corações leves ou pesados? Opacos ou iluminados? Angustiados ou tranquilos?
Estaremos transferindo realizações inadiáveis para um hipotético momento futuro, no qual encontraremos as nossas próprias obras, sem maquiagem, ou qualquer recurso de auto engano?
(Paulo G. P. Costa-A Morte Não é o Ponto Final)
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