Espiritismo Sem Sessão Espírita?
Encontramos, às vezes, confrades que não gostam de frequentar sessões espíritas. As razões que os levam a essa decisão - creio eu - são respeitáveis, pois cada um de nós sabe de si e do que, modernamente, se convencionou chamar de suas motivações.
É preciso, entretanto, examinar de perto esta posição e ver o que contém ela de legítimo, não apenas no interesse da Doutrina que todos professamos, mas também no interesse de cada um.
De fato, há alguns problemas ligados à frequência de trabalhos mediúnicos. O primeiro deles - e dos mais sérios - é o da própria mediunidade, essa estranha faculdade humana sobre a qual ainda há muito o que estudar. Outra dificuldade ponderável é a organização de um bom grupo que se incumba, com regularidade e seriedade, das tarefas a que se propõe.
Há outros problemas e dificuldades de menor importância, mas creio que basta considerar aqui apenas esses dois - o que não é pouco.
A análise das questões mais complexas quase sempre começa pelas definições acacianas e de vez em quando é bom a gente recorrer a velhos conceitos para iluminar obstáculos novos.
O Espiritismo doutrinário nasceu das práticas mediúnicas, delas se nutre e delas depende, em grande parte, o seu desenvolvimento futuro. O intercâmbio, entre o mundo espiritual e este, somente assumiu expressão e sentido filosófico depois que Kardec ordenou e metodizou os conhecimentos adquiridos no contato com os nossos irmãos desencarnados. Parece claro, também, que o equacionamento e a solução das grandes inquietações humanas vão depender, cada vez mais, da exata compreensão do mecanismo das relações entre esses dois mundos que, no final de contas, não são mais que um único, em planos diferentes. Logo, a prática mediúnica é, não apenas aconselhável, como indispensável ao futuro da Humanidade.
Convém pensar também que a própria dinâmica da Doutrina Espírita exige esse intercâmbio espiritual, em primeiro lugar para que se observe e estude o fenômeno da mediunidade, suas grandezas, os riscos que oferece, as oportunidades de aprendizado e progresso que contém, não apenas para o médium, mas para aquele que assiste aos trabalhos e dele participa.
É claro que a mediunidade tem um mecanismo muito complexo e até agora poucos foram os cientistas dignos desse nome que se dedicaram, realmente, a fundo e com a mente desarmada de preconceitos, ao estudo dela. Mas se não a observarmos em ação, como poderemos almejar compreendê-la um dia? Só aprendemos a nadar pulando dentro da água sob a orientação de quem já tenha, a respeito, noções satisfatórias. Se é incompleto o conhecimento sem a prática mediúnica, também o é o exercício desta sem o estudo daquilo que já se sabe sobre o fenômeno.
Evidentemente, precisamos estar atentos ao puro mediunismo sem objetivos mais elevados, como também ao animismo de certos médiuns mais interessados nas suas próprias ideias que na transmissão daquilo que recebem dos companheiros desencarnados.
Há riscos, sim. De mistificações por parte de pobres irmãos carecentes de entendimento. De aceitação de inverdades sutilmente apresentadas sob fascinantes roupagens. De aflições - embora passageiras - causadas pelo desfile das angústias de irmãos sofredores.
Será, porém, que isso constitui motivo para nos privarmos das recompensas do aprendizado, das alegrias que experimentamos ao encaminhar às trilhas da paz um Espírito em crise?
Há um universo a explorar. Há uma humanidade inteira clamando por ajuda, esclarecimento, compreensão e caridade no chamado Mundo Espiritual. Seus dramas e suas angústias não são puramente individuais. O Espírito que erra, invariavelmente prejudica a alguém mais. Os erros que cometemos, prendem-nos a uma cadeia de fatos e de seres que se estende pelo tempo afora. Nunca o drama de um Espírito é apenas seu. Há sempre, nesta vida ou em algumas das anteriores, elos que nos ligam a outros seres e a outras dores. Aquele que odeia, muitas vezes já está maduro para o perdão - basta uma palavra serena de esclarecimento, um gesto de tranquila compreensão para libertar, não apenas o seu Espírito da tormenta do ódio, mas também o irmão que lhe sofre as agressivas vibrações, provocadas por antigas mágoas. Aos que ainda desejam vingar-se de antiquíssimas ofensas, mostramos a inutilidade do seu intento e os novos problemas com que virão agravar o seu futuro. Ao que ainda se prende a superadas teologias, ajudamos a compreender a nova realidade que tem diante de si. A todos que erraram, consolamos com a nossa própria imperfeição e com a certeza da recuperação. Os que já atingiram elevados patamares de conhecimento e amor, ouvimo-los com admiração e proveito. Muitos nos buscam apenas para trazer notícias das suas próprias conclusões, da nova compreensão diante desse mistério sempre renovado da vida.
Multidões de seres que aqui viveram inúmeras vezes, como criaturas encarnadas, lá estão à espera de ajuda e, no entanto, são tão poucos os grupos que se dispõem a esse trabalho que tão altos dividendos paga em conhecimento e progresso espiritual.
No exercício constante dessa atividade, vemos, cada vez melhor, a solidez inabalável da Doutrina que nos legaram os Espíritos, por intermédio da lúcida inteligência de Kardec.
Crentes ou descrentes, católicos ou protestantes, todos nos vêm confirmar as Verdades mestras do Espiritismo: a de que o Espírito sobrevive à morte física, de que reencarna, de que progride e aprende, tanto na carne como no Espaço; de que as leis universais são perfeitas, iniludíveis, mas flexíveis, pois exigem a reparação, ao mesmo tempo que fornecem os recursos para o reencontro do Espírito com o seu próprio destino. Nos dramas a que assistimos nas sessões mediúnicas, aprendemos a contemplar a transitoriedade do mal, a amarga decepção do suicida, a crueza do arrependimento daquele que desperdiçou o seu tempo na busca ansiosa das ilusões mundanas, a inutilidade das posições humanas, o ônus terrível da vaidade, a tensa expectativa de um novo mergulho na carne redentora, na qual o Espírito fica, pelo menos, anestesiado nas suas angústias.
Lições terríveis ministradas com lágrimas e gritos de desespero por aqueles que assumiram débitos enormes diante da Lei; lições de doce tranquilidade e de serena humildade dos que já superaram as suas fraquezas e vêm, sem ostentação, apenas mostrar como é o Espírito daquele que já venceu a si mesmo na milenar batalha contra suas próprias deficiências. Muitas e variadas lições, aprendizado extenso e profundo para todos os que desejarem realmente apressar os passos e encurtar a caminhada que leva a Deus. Por que, então, desprezar esse trabalho magnífico que tanta recompensa nos traz e também aos nossos irmãos do outro lado da vida?
Quanto à organização dos grupos não será tão difícil assim. Há estudos sérios e muito seguros de orientação doutrinária a respeito. É bom que o grupo seja pequeno, de preferência familiar, composto por pessoas que se harmonizem perfeitamente e que estejam interessadas num trabalho sério e contínuo. Que não se deixem desencorajar por dificuldades ou pela aparente insignificância dos primeiros resultados, nem se deixem fanatizar por pseudo guias. Aos poucos demonstrada a seriedade de propósito, os trabalhos irão surgindo sob a orientação de Espíritos esclarecidos. A cada bom grupo de seres encarnados dispostos à tarefa, corresponderá um grupo equivalente de Espíritos, num intercâmbio salutar de profundas repercussões, pois que Espiritismo é doutrina, mas é também, prática mediúnica, e todos nós, ainda que nem sequer suspeitemos disso, temos compromissos a executar, ajustes a realizar com irmãos que nos aguardam mergulhados em ódios e incompreensões, que se envenenam a si mesmos e a nós próprios.
“Lamentar a desgraça” - dizia Horace Mann - “é apenas humano; minorá-la é divino”.
(Hermínio C. Miranda-Estudos e Crônicas)
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