sexta-feira, 16 de outubro de 2020

 Sementeira e Colheita


Certo homem, enredado no vício da embriaguez, era frequentemente visitado por generoso amigo espiritual que lhe amparava a existência. 

  • Arrepende-te e recorre à Bondade Divina! - rogava o benfeitor quando o alcoólatra se desprendia  parcialmente do campo físico, nas asas do sono. 

  • Vale-te do tempo e não adies a própria renovação! Um corpo terrestre é ferramenta preciosa com que a alma deve servir na oficina do progresso. Não menosprezes as próprias forças!...

O infeliz acordava, impressionado. Rememorava as palavras ouvidas, tentava mentalizar a formosura do Enviado Sublime e, intimamente, formulava o projeto de regenerar-se.

Todavia, sobrevindo a noite, sucumbia de novo à tentação. 

Embebedando-se, arrojava-se a longo período de inconsciência, tornando ao relaxamento e à preguiça.

Borracho, empenhava-se tão-somente em afogar as melhores oportunidades da vida em copinho sobre copinho.

Entretanto, logo surgia alguma faixa de consciência naquela cabeça conturbada. O mensageiro  requisitava-o, solícito, recomendando:

  • Atende! Não fujas à responsabilidade. A passagem pela Terra é valioso recurso para a ascensão  do Espírito… O tempo é um crédito de que daremos conta! Apela para a compaixão do Senhor! Modifica-te! Modifica-te!...

O mísero despertava na carne, lembrava a confortadora entrevista e dispunha-se ao reajustamento preciso; no entanto, depois de algumas horas, engodado pelos próprios desejos, caía novamente na zona escura.

Ébrio, demorava-se meses e meses na volúpia do auto-esquecimento.

Contudo, sempre aparecia um instante de lucidez em que o companheiro vigilante interferia.

Novo socorro do Céu, novas promessas de transformação e nova queda espetacular.

Anos e anos foram desfiados no milagroso novelo do tempo, quando o infortunado, de corpo gasto, se reconheceu enfermo e abatido.

A moléstia instalara-se, desapiedada, na fortaleza orgânica, inclinando-lhe os passos para o desfiladeiro da morte. 

Incapaz de soerguer-se, o doente orou, modificado. 

Queria viver no mundo e, para isso, faria tudo por recuperar-se.

Em breves segundos de afastamento do estragado veículo, encontrou o divino mensageiro e, ajoelhando-se, comunicou:

  • Anjo abnegado, transformei-me! Sou outro homem… Estou arrependido! Reconheço meus erros e tudo farei para redimir-me… Recorro à piedade de nosso Pai Todo Compassivo, de vez que pretendo alcançar o futuro na feição do servidor desperto para as elevadas obrigações que a vida nos conferiu...

O protetor abraçou-o, comovidamente e, enxugando-lhe as lágrimas, rejubilou-se, exclamando:

  • Bem-aventurado sejas! Doravante, estarás liberto da perniciosa influência que até agora te obscureceu a visão. Abençoado porvir sorrirá ao teu destino. Rendamos graças a Deus!...

O doente retomou o corpo, de coração aliviado, com a luz da esperança a clarear-lhe a alma. 

Mas os padecimentos orgânicos recrudesciam.

A assistência médica, aliada aos melhores recursos de enfermagem, revelava insuficiência para subtrair-lhe o mal-estar.

Findos vários dias de angustiosa dor, entregou-se à prece com sentida compunção e, amparado pelo benfeitor invisível, achou-se fora da carne, em ligeiro momento de alívio.

  • Anjo amigo - implorou - acaso  o Todo-Bondoso não se compadece de mim? Estou renovado!... Alterei meus rumos! Por que tamanhas provas?

O guardião afagou-o, benevolente, e esclareceu:

  • Acalma-te! O sincero reconhecimento de nossas faltas é força de limitação do mal em nós e fora de nós, qual medida que circunscreve o raio de um incêndio, para extingui-lo pouco a pouco, mas não opera reviravoltas na Lei. O amor infinito de Deus nos descerra fulgurantes caminhos à própria elevação; todavia, a justiça d’Ele determina venhamos a receber, invariavelmente, segundo as nossas obras. Vale- te do perdão divino que, por resposta do Senhor às tuas  rogativas, é agora em tua alma anseio de reajuste e dom renovador, mas não olvides o dever de destruir os espinhos que ajuntaste. O arrependimento não cura as afecções do fígado, assim como o remorso edificante do homicida não remedeia a chaga aberta pelo golpe da lâmina insensata!... Aproveita a enfermidade que te purifica o sentimento e usa a tolerância do Céu como novo compromisso de trabalho em favor de ti mesmo!...

O doente desejou continuar ouvindo a palavra balsamizante do amigo celeste… A carne enfermiça, porém, exigia-lhe a volta.

Contudo, recompondo-se mentalmente no corpo fatigado, embora gemesse sob a flagelação regeneradora, chorava e ria, feliz. 

(Espírito Humberto de Campos-Estante da Vida-Chico Xavier)


Nenhum comentário:

Postar um comentário