Parcelamento
Maneco Dantas era ferreiro. Braços fortes. Músculos rijos. Estatura avantajada.
Conhecido em toda a região, conquistara a fama de profissional hábil, e curiosos se aglomeravam diante da oficina para vê-lo trabalhar. Manejava o fole com o braço esquerdo e, com o direito, segurava o martelo que descia, firme, sobre a bigorna, moldando o ferro aquecido na fornalha.
Apesar da aparência tosca e do serviço grosseiro, tinha bons modos. Gentil, educado. Voz mansa. Era, porém, sistemático e impunha certas condições para pagar o que devia. Qualquer que fosse o tamanho da dívida, pedia parcelamento.
Certo dia, amanheceu cego dos dois olhos. A notícia comoveu a cidade. Buscou recursos até na capital. Várias consultas. Inúmeros exames. Junta médica. Diagnóstico de cegueira completa e definitiva, mas de causa desconhecida. Sem recuperação.
Abalado, Maneco confinou-se em casa. Guilherme, espírita e companheiro de forja, fazia-lhe visitas diárias. Numa delas, o ferreiro abriu o coração e dialogou com o amigo. Disse, lamentando:
Por que esse infortúnio em meu caminho?
O visitante explicou, com bondade:
O sofrimento sem motivo conhecido nesta existência é coisa do passado. Vivemos várias vezes. O que se erra numa vida paga-se em outra.
Maneco ficou pensativo, mas logo contestou, prosseguindo a conversa:
Pagamento com cegueira?
É consequência do mau uso da vista, em outros tempos. Jesus afirmou que, se o olho é causa do mal, deve ser punido. Você errou antes, está pagando agora. É a Lei de Ação e Reação.
O enfermo calou-se por um instante. Depois, comentou, contrariado:
Não concordo com essa lei. É cruel, não parcela a dívida.
Guilherme ficou surpreso e perguntou:
Que parcelamento você queria?
E Maneco, mexendo a cabeça de um lado para outro, finalizou, irritado:
Ora, um olho de cada vez.
(Espírito Hilário Silva-Contos e Crônicas-Antônio Baduy Filho)
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