terça-feira, 6 de outubro de 2020

 Primeiro a Abnegação


O Espiritismo é uma doutrina que nos convida à interiorização de valores e à meditação quanto a postura que assumimos frente ao mundo em que vivemos. As coisas ficam tão claras com a Doutrina Espírita, que alia o Evangelho de Jesus à filosofia espírita, que o consolo começa a tomar corpo e a se fazer presente para agasalhar nossos corações e nossa alma sofredora.

Na medida em que aprendemos a aceitarmos que tudo no Universo está certo, que tudo está correto conforme a vontade do Pai, e começarmos a avaliar nossas ações frente ao mundo, poderemos perceber que nada ou muito pouco fazemos ou fizemos para modificar o mar de dores e aflições que envolve o homem encarnado ou desencarnado.

Com o conhecimento da Doutrina Espírita, cristianismo redivivo, a luz começa a se fazer sentir em nosso ser, mesmo que de forma tênue. O entusiasmo, ao percebê-la presente, faz com que tentemos galgar, de um único salto, o caminho da virtude, modificando nosso ponto de vista e desejando ser, de pronto, o que ainda estamos longe de ser.

Queremos atender ao semelhante que sofre, queremos exercitar a caridade. Mas não aquela caridade que provém do esforço continuado, lento, progressivo, dedicado. Não! Queremos algo maior, mais rápido, mais eficiente: a caridade ligada às grandes obras. Sentimos a força do pensamento nos impulsionando para o que é grande, majestoso e destacado.

Assim, movidos pelo entusiasmo, sentimos, por exemplo, vontade de montar um asilo para abrigar os idosos desamparados da sorte, pessoas que já viveram, que estão no limite da vida encarnada e que muitas vezes são esquecidas pela família. Sentimos o desejo de fazer alguma coisa por elas. Temos que lhes dar um pouco mais de amor e esperança. Elas precisam de um teto, de um leito. Necessitam de quem cuide delas, de quem converse com elas, de quem mostre que ainda são muito importantes, que a vida não termina com a morte e que, se hoje seus corpos já estão cansados, seus Espíritos são eternos.

De forma semelhante, quando passamos pela rua e presenciamos a miséria, sentimos o impulso de modificar esse mundo desigual. Queremos ajudar a todos. Talvez, quem sabe, construir uma casa que possa abrigar a infância desamparada, que possa levar a essas crianças um pouco mais de alento e educação, que há de forjá-las para um futuro melhor. 

E, então, pensamos: - “Se eu tivesse um pouco mais de recursos… se eu ganhasse um pouco mais de dinheiro… se eu tivesse um pouco mais de influência no mundo… poderia fazer tanta coisa para minimizar o sofrimento do meu semelhante! Ah! Se Deus me desse recursos, o que eu não faria?”

O entusiasmo que nos move nessas circunstâncias é real, é verdadeiro. Mas os objetivos e a vontade ainda não são. Poucos são aqueles que, tomando contato com a Doutrina Espírita, não têm, mesmo que de leve, esse tipo de pensamento. E muitos ainda são aqueles que pedem e aguardam, até hoje, a vinda dos recursos exteriores, para começarem a fazer alguma coisa na direção da melhoria do mundo. Sentimo-nos renovados internamente porque já acreditamos no caminho apontado pela lei da caridade. Já entendemos que fomos ou estamos sendo omissos frente às dores e vicissitudes da humanidade. Queremos mudar as coisas rapidamente. Então pedimos e esperamos os recursos para o trabalho. Afinal, Jesus não nos disse: “Pedi e obtereis”?

Mas, será que aguardar que o recurso venha até nós é exatamente a ação que devemos empreender? Bezerra de Menezes orienta os trabalhadores da seara do bem com uma frase que diz: - “Meus irmãos, primeiro a abnegação e depois o recurso”. Deus não entrega fardos pesados a ombros fracos, incapazes de perseverar diante das pedras e dificuldades do caminho. Isto quer dizer que só predisposição não basta para que se possa fazer alguma coisa. É uma condição necessária, mas está longe de ser suficiente. 

Recursos? Só para quem demonstre, com ações, que é capaz de perseverar na obra. Jesus realmente disse que devíamos pedir, mas também que devíamos procurar, ir ao encontro daquilo de que estivéssemos precisando. Aí, tudo nos seria concedido pelo esforço. Jesus, com suas palavras, não estava nos convidando a uma postura estática, de espera, mas a assumir um comportamento dinâmico, de trabalho, de fé por meio das obras. 

Toda predisposição, todo entusiasmo, sem o alicerce do esforço próprio da fé, são meramente superficiais e, no primeiro embate, na primeira dificuldade, desiste da luta. Os ombros não são suficientemente fortes para carregar os fardos necessários.

A história da humanidade mostra exemplos de pessoas que venceram o mundo e a si mesmas e que, desde a mais tenra idade, se dedicaram espontaneamente ao serviço de seus semelhantes, sem aguardar que recursos outros, além de seu próprio esforço, lhes fossem passados. Os testemunhos de fé de Francisco de Assis, de Antônio de Pádua, de Madre Tereza, de Irmã Dulce e de muitos outros trabalhadores da seara do Cristo nos mostram que, dentro do princípio do “é dando que se recebe”, na medida em que o entusiasmo interior ia se transformando em ação efetiva, seus ombros reforçados iam recebendo, gradativamente, um pouco mais de carga. Desta forma, esses sublimes viajores viveram  e exemplificaram, procurando dar de si para amenizar as dores dos seus semelhantes, conseguindo, com a renúncia de si mesmos, construir sua própria igreja de amor e caridade, colocando um tijolo a cada dia, mas todo dia colocando um tijolo. 

(Jonas - O Contador de Histórias)


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