sexta-feira, 16 de outubro de 2020

 A Sementeira é Livre…


Fomos criados simples e ignorantes. Simples, porque nada possuíamos, além da oportunidade de evolução que a todos foi dada em igual intensidade. Ignorantes, porque nada sabíamos em relação à Criação, cabendo-nos pensar, desenvolver a inteligência e aprender através de experiências próprias, para conseguirmos a evolução prometida. Deus nos deu a liberdade de escolher, a vontade própria, a capacidade de pensar e agir, e a Lei do Amor, Justiça e Caridade como orientação quanto ao melhor caminho a ser percorrido, gravada em nossa consciência como balizadora de ações e indicadora do certo e do errado.

Nosso destino foi assim determinado pelo Criador: “Devemos evoluir continuamente em espírito e verdade, cumprindo tudo o que está prescrito na Lei, amando a Deus sobre todas as coisas, com toda força, com todo espírito, e ao próximo  como a nós mesmos”.

A Justiça de Deus se faz sentir na liberdade de escolha e na avaliação da capacidade, que pudermos adquirir, de cumprir nossos próprios desígnios. Autoriza-nos a agir, mas cobra-nos a resposta correta, isto é, responsabiliza-nos pelo resultado do que fazemos. A cobrança é tanto maior quanto maiores forem o discernimento e o conhecimento da verdade. Assim, para os ignorantes, para os que ainda não conseguem perceber a verdade, a justiça de Deus é a misericórdia, mas para aqueles que já compreendem a Lei, a misericórdia de Deus é a justiça: “A cada um conforme a sua obra”.

A evolução moral está ligada à compreensão e à vivência desses desígnios. Tudo o que contraria a Lei de Amor, Justiça e Caridade, é imoral. Evoluir em moralidade é evoluir em Espiritualidade, estendendo a mão ao irmão necessitado de luz, de conhecimento e de paz.

O uso que devemos fazer do livre-arbítrio é bem orientado pela Lei de Causa e Efeito, responsável pela noção da justiça, a nos indicar que todos somos lavradores do nosso destino, cabendo-nos colher conforme tivermos semeado. Não será possível colher uvas quando plantamos espinheiros. Mas, se semearmos a boa semente seremos capazes de colher os bons frutos, resultado do correto plantio.

Os homens devem evoluir, desde o estado de ignorância até a consciência total de si mesmo, fazendo e refazendo suas experiências, entre mergulhos na carne e retornos ao Mundo Espiritual. Na carne, tem seus sentidos limitados, seus instintos biológicos hereditários influenciando suas ações e sensações, e tem seu Espírito aprendendo por meio das experiências, dos sentimentos e das emoções, balizados pela Lei do Amor, Justiça e Caridade. 

Em seu caminho para a Espiritualidade Superior, fazendo e refazendo experiências, o homem usa e abusa de seu livre arbítrio, tendo as dores física e moral como instrumentos de reajuste e aprendizagem. Atingindo o estado de angelitude, segue a Lei de Deus por consciência pura, pois sente e exercita a verdade naturalmente, já tendo adquirido e incorporado, em seu ser, os valores imperecíveis que Deus lhe faculta obter.

Mas os seres a caminho da evolução, ainda presos às sensações e aos instintos animais, permanecem em ignorância relativa quanto à verdade, aprendendo pelo processo do ensaio e erro, sendo burilados continuamente pelo constrangimento das dores física e moral. A dor física abate o corpo material afetando os seus sentidos e sensações. A dor moral abate o Espírito, fazendo com que ele se descubra e se desvencilhe dos envoltórios mais grosseiros de sua personalidade, deixando surgir sua individualidade real. Na medida em que o Espírito chora, seu envoltório fluídico se purifica. 

Em “O Evangelho Segundo o Espiritismo”, capítulo V, item 7, encontramos uma mensagem em que Lázaro nos ensina: “A igualdade em face da dor é uma sublime providência de Deus, que quer que todos os seus filhos, instruídos pela experiência comum, não pratiquem o mal, alegando ignorância de seus efeitos”. 

A dor realinha o homem com a verdade. Na medida que aprende, o homem se liberta dos grilhões de sofrimento moral que o aprisionam  ao estado de ignorância  de si mesmo. O realinhamento  se inicia  com a predisposição de refazer o que não se fez bem, a partir do arrependimento e do remorso pelas faltas cometidas, que ele vê como causas verdadeiras de suas aflições. A tomada de consciência gera o desejo sincero de retomada do caminho da virtude, a que todos são compelidos pelo determinismo da Lei de Deus. E a misericórdia de Deus dá a justiça como orientadora do caminho da virtude: “a sementeira é livre, mas a colheita é obrigatória”.

(Jonas, O Contador de Histórias)


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