quinta-feira, 15 de outubro de 2020

 A Moeda

Tininha da Praça recebera o apelido certo. Fazia ponto no pequeno largo, diante da agência bancária. Moça ainda, compleição franzina. Aparência doentia. As vestes, raladas pelo uso, mal cobriam o corpo desnutrido pela miséria. Aproveitava o movimento do local para rogar auxílio. Uma moeda que fosse para o minguado pão de cada dia. 

Era sozinha com o filho. O companheiro se fora. Ali, na praça, ficava por horas, esperando a caridade alheia. Em casa, o filhinho, cego e paralítico, no catre sem conforto, e que a vizinha olhava de favor. 

O rosto sofrido e a humildade da jovem inspiravam compaixão e simpatia. Raros eram os indiferentes. A maioria ajudava, como se fosse obrigação diária.

  • É pouco, Tininha, mas é o de hoje - dizia alguém, estendendo-lhe algum recurso.

  • O pouco com Deus é muito - agradecia ela, contente e humilde. 

Naquela tarde, a mulher empertigada parou diante da pedinte. Colares à vista. Pulseiras tilintando. Roupa vistosa. De tal forma sua presença chamou a atenção, que logo algumas pessoas se reuniram em torno delas. 

A desconhecida atirou uma moeda no colo da mendiga e, olhando-a de cima, começou a conversa:

  • É moça. Por que pede?

  • Preciso, dona.

  • E o trabalho?

  • Não tenho saúde.

  • Mas sai de casa.

  • É o que posso.

  • Exploração, moça.

  • Precisão, senhora.

  • Falta de vergonha.

A infeliz sentiu o golpe, baixou os olhos e começou a chorar baixinho. 

O jardineiro da praça, um dos presentes no grupo em volta, tomou a palavra e falou:

  • A senhora pode ajudar a Tininha, sua moeda vai matar a fome do filho dela. Mas para a senhora não existe ajuda.

A mulher empinou o rosto e, já ensaiando a retirada, comentou com rispidez:

  • Ajudar a mim? Que petulância!

O jardineiro, porém, não perdeu tempo e explicou, sob o aplauso dos presentes:

  • Não existe moeda no mundo que acabe com o orgulho.

(Espírito Hilário Silva-Contos e Crônicas 2-Antônio Baduy Filho)


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