A Moeda
Tininha da Praça recebera o apelido certo. Fazia ponto no pequeno largo, diante da agência bancária. Moça ainda, compleição franzina. Aparência doentia. As vestes, raladas pelo uso, mal cobriam o corpo desnutrido pela miséria. Aproveitava o movimento do local para rogar auxílio. Uma moeda que fosse para o minguado pão de cada dia.
Era sozinha com o filho. O companheiro se fora. Ali, na praça, ficava por horas, esperando a caridade alheia. Em casa, o filhinho, cego e paralítico, no catre sem conforto, e que a vizinha olhava de favor.
O rosto sofrido e a humildade da jovem inspiravam compaixão e simpatia. Raros eram os indiferentes. A maioria ajudava, como se fosse obrigação diária.
É pouco, Tininha, mas é o de hoje - dizia alguém, estendendo-lhe algum recurso.
O pouco com Deus é muito - agradecia ela, contente e humilde.
Naquela tarde, a mulher empertigada parou diante da pedinte. Colares à vista. Pulseiras tilintando. Roupa vistosa. De tal forma sua presença chamou a atenção, que logo algumas pessoas se reuniram em torno delas.
A desconhecida atirou uma moeda no colo da mendiga e, olhando-a de cima, começou a conversa:
É moça. Por que pede?
Preciso, dona.
E o trabalho?
Não tenho saúde.
Mas sai de casa.
É o que posso.
Exploração, moça.
Precisão, senhora.
Falta de vergonha.
A infeliz sentiu o golpe, baixou os olhos e começou a chorar baixinho.
O jardineiro da praça, um dos presentes no grupo em volta, tomou a palavra e falou:
A senhora pode ajudar a Tininha, sua moeda vai matar a fome do filho dela. Mas para a senhora não existe ajuda.
A mulher empinou o rosto e, já ensaiando a retirada, comentou com rispidez:
Ajudar a mim? Que petulância!
O jardineiro, porém, não perdeu tempo e explicou, sob o aplauso dos presentes:
Não existe moeda no mundo que acabe com o orgulho.
(Espírito Hilário Silva-Contos e Crônicas 2-Antônio Baduy Filho)
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