Os Olhos
Januária Cerqueira vivia no condomínio havia muitos anos. Corpo pequeno. Rosto miúdo. Olho esperto.
Moradora antiga do bairro, tinha fama de espionar a vida alheia e passar adiante. Tal era seu desejo de ver o que se passava com os outros que, uma vez foi agredida por vizinha, revoltada com essa atitude.
A moradora curiosa não se dava conta do uso impróprio que fazia da visão e comentava, indiferente:
Digo só o que vejo.
Simpatizante do Espiritismo, Januária frequentava as reuniões de estudo e lá ouvia ponderações a respeito de sua conduta. Madalena, a companheira mais chegada, dizia-lhe, com preocupação:
O que entra pela vista tem que ser analisado com bom senso e discernimento. É preciso agir de tal forma que o que vemos não provoque confusão e estragos. A Lei de Causa e Efeito pune com rigor o olho que é motivo de escândalo.
Januária, porém, não mudava. Certo dia, subiu no muro para presenciar desentendimento conjugal de vizinhos. Caiu e bateu com o rosto no chão. Quando chegou para os estudos, estava com os olhos inchados e roxos. Explicou-se logo, evitando as perguntas dos companheiros:
Foi engano daquela Lei de Causa e Efeito.
E, sem perda de tempo, disfarçando seu comportamento inconveniente, encerrou o assunto, nervosa:
A Lei errou. O casal fez o escândalo e meus olhos é que pagaram.
(Espírito Hilário Silva-Contos e Crônicas 2-Antônio Baduy Filho)
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