Escuridão
Este mundo é muito triste. Lágrimas. Enfermidades. Sofrimento.
O desabafo era de Venâncio Seixas. Homem correto. Temperamento sensível. Bom companheiro nas tarefas assistenciais. Tinha, porém, uma dificuldade: medo da escuridão.
Benevides, o amigo de muitos anos, comentou, em resposta:
O mundo é de provas e expiações. Aqui, todos trazemos mazelas a serem curadas. E um dos remédios é a dor. Nosso planeta não é colônia de férias, mas reformatório em que as provações dolorosas nos conduzem ao caminho do bem.
A conversa acontecia durante a assistência domiciliar, quando os companheiros visitavam os irmãos mais infelizes. Bairro carente. Ruas esburacadas. Casario pobre.
De repente, todas as luzes se apagaram por alguns minutos. O grupo parou de caminhar, e Venâncio começou a sentir-se mal. Falta de ar. Suores abundantes. Tremores.
Quando a energia voltou, o trabalho prosseguiu. Mais adiante, alguém explicou que fora defeito na usina de força. Benevides aproveitou a oportunidade para completar o raciocínio:
Venâncio, assim como a escuridão nos ensina a valorizar a luz, também a Terra é estágio sombrio em nossa trajetória evolutiva, onde ganhamos experiência e aprendemos a buscar a transformação moral, para habitar, no futuro, os mundos superiores e iluminados.
Venâncio assentiu com a cabeça, mas observou com a voz trêmula:
Tomara que nesses mundos superiores as usinas de força não tenham defeitos.
(Espírito Hilário Silva-Contos e Crônicas 1-Antônio Baduy Filho)
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