Juízos
"Poderá jamais implantar-se na Terra o reinado do Bem?"A tradição religiosa, em várias culturas, enfatiza um “juízo final”, com premiação dos bons e castigo dos maus, em bem-aventuranças ou sofrimentos eternos.
A escatologia das religiões cristãs anuncia a ressurreição dos mortos e o retorno de Jesus para separar o “joio” do “trigo”, os “bodes” das “ovelhas”, os bons dos maus, transformada a Terra em paraíso habitado pelos “eleitos”.
Parece filme de horror imaginar corpos decompostos reorganizando-se, reestruturando células e órgãos, com o aproveitamento de átomos que se dispersaram e que, no desdobrar do tempo, formaram incontáveis organismos nos reinos vegetal e animal.
Ainda que isso ocorresse, por mágica divina, haveria uma multidão tão grande de ressurretos que, literalmente, ocuparia todos os espaços, tornando impossível a vida na Terra.
Essas fantasias, extremamente ingênuas à luz do conhecimento atual, nasceram de interpretações equivocadas, por má fé ou descuido, de textos evangélicos.
Onde Jesus informa a Nicodemos (João, cap. 3º), que é preciso nascer de novo, explicando o processo ao doutor da Lei, confunde-se reencarnação, o retorno à vida física, com a absurda reanimação de um cadáver desintegrado.
E, quando o apóstolo Paulo discorre a respeito do perispírito, explicando que há corpos celestes e corpos terrestres, chega-se à espantosa conclusão de que o cadáver não apenas se recompõe e revive, mas, também, torna-se puro, imaculado, eterno…
O “juízo final” é incompatível com a Justiça, porquanto nenhum crime, por mais tenebroso, nenhum comportamento, por mais vicioso, nenhuma existência, por mais comprometida com o mal, justifica uma destinação definitiva, um sofrimento sem fim.
Quem assim concebe nunca se deteve em imaginar o que é a eternidade. Suponhamos a duração da existência humana como um grão de areia que se derrama na ampulheta do tempo. Bilhões, trilhões de anos, talvez, ou mais, passariam até que os grãos de areia do deserto do Saara fossem derramados. E eles todos constituiriam insignificante montículo no interminável areal da vida eterna.
Um princípio elementar de justiça determina que a sentença não pode transcender a natureza do crime. Seria odioso condenar à prisão perpétua o homem que rouba um pão. Não há crime que justifique um castigo eterno.
Todo julgamento, portanto, deve ser relativo, e temporal a pena, considerado o estágio em que se encontra o indivíduo, com sentenças compatíveis com suas necessidades evolutivas.
A própria morte é um “juízo”, porquanto colhemos no Além as consequências de nossos acertos e desacertos, como periódica avaliação de aprendizado, no suceder das experiências reencarnatórias.
Se bem observarmos, verificaremos que, diariamente, somos julgados por um juiz incorruptível - a própria consciência. A felicidade, a depressão, a ansiedade, o desajuste, são quase sempre “penalidades” que cumprimos compulsoriamente, até que decidamos a modificar nossos rumos, nossa maneira de agir, propondo-nos a cumprir as Leis Divinas.
Assim como ocorre individualmente, há “juízos” coletivos parciais, nas muitas moradas da Casa do Pai, segundo expressão de Jesus.
Governos espirituais avaliam o progresso dessas coletividades com vistas à sua promoção na sociedade dos mundos, providenciando-se o afastamento de Espíritos rebeldes que possam comprometer as conquistas alcançadas.
Neste aspecto podemos concordar com as tradições religiosas milenárias que falam de um “juízo” para a Humanidade, precedendo a edificação de uma sociedade melhor no Terceiro Milênio.
Esse “juízo” não será necessariamente marcado por hecatombes naturais ou devastador conflito nuclear. A hipótese de uma guerra atômica, decantada pelas cassandras do terror, torna-se cada vez mais remota, na medida em que os governos que detêm a tecnologia para tanto conscientizam-se de que não haveria nem vencedores nem vencidos, nem mesmo sobreviventes.
Simplesmente, os Espíritos recalcitrantes no vício e no crime deixarão de reencarnar na Terra e serão degredados em planetas inferiores, onde as duras limitações e os sofrimentos a que estarão sujeitos os ajudarão a vencer a resistência à renovação.
(Richard Simonetti-Um Jeito de Ser Feliz)
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