O Tesouro
Oi, compadre Cornélio! Boa tarde pro senhor!
Boa tarde, irmão Simplício.
Parece que ontem o senhor não gostou de ouvir o canto dos meus passarinhos, não comentou nada e hoje veio no fim do dia!
Peço-lhe desculpas pelo meu erro. As manifestações da natureza sempre nos trazem ensinamentos e o canto alegre dos pássaros nos faz ver como somos ainda imperfeitos e limitados para compreender os mistérios que envolvem a criação divina.
De minha parte está desculpado, mas veja se aproveita o canto triste dos sabiás-laranjeira agora de tarde. Escute só!
Meu irmão levou a mão ao ouvido e imitei-lhe o gesto, o que trouxe um sorriso feliz ao seu rosto, seguido do comentário:
Está ouvindo, seu Cornélio? Deus fala com a gente pela sua criação.
É sim, meu amigo, “ouça quem tem ouvidos de ouvir”!
Hoje o tempo é maior do que o de ontem, seu Cornélio?
Não é não, meu amigo!
Se for do mesmo tamanho, está bom. Tenho dois casos, mas primeiro vou contar o menor. Assente aí, seu Cornélio, antes que o Espírito do Pai Juca ocupe o lugar!
Faz uns quinze dias, eu estava sentado ali debaixo da jaqueira, quando vi a poeira levantando lá embaixo no pé da serra. Pelo trote e pelo tamanho da poeira, vi logo que era cavalho velho. E era sim, era nhô Tino da Chica que chegava:
Bom dia, Vô Simplício!
Bom dia, meu filho, o que traz você por essas bandas?
Estou atrás de oração. As coisas não estão boas pro meu lado não! O senhor acredita que lá em casa está faltando até o que comer?
Não fale isso, meu filho! Com aquelas terras boas que você tem lá embaixo?
Pois é, meu Vô, vim aqui só com a promessa do agrado, pois está me faltando recurso para trazer. Vim pedir pro senhor fazer uma oração pra eu conseguir vender aquelas terras.
Nisso, Pai Juca chegou e falou pra que eu repetisse tudo o que ele falava, e assim eu fiz:
Pai Juca, uma alma boa, está aqui do meu lado mandando falar pra você não vender não! Diz ele que tem tesouro enterrado naquelas terras.
Não fale isso, meu Vô! E eu passando necessidade!
Pois é, meu filho, ele manda falar pra você pegar uma enxada boa e cavar aquela terra, sem passar de um palmo de fundura e revirá-la, que o tesouro está lá.
Mas onde, meu Vô? A baixada é grande.
Ele não sabe, só sabe que você só tem sete dias para fazer isso, pois o tempo das águas está pra chegar!
Já que é assim, vou embora pra começar hoje ainda! Minha enxada está até enferrujada.
Não se preocupe não, meu filho, leve esta aqui, está novinha e é de folha larga, cada cavoucada vale por duas. Vá com Deus!
Já estou indo, meu velho. Assim que achar o tesouro volto pra trazer um agrado pro senhor!
Depois de sete dias, Nhô Tino voltou. Estava bravo que nem uma onça pintada. Quando o vi subindo a serra, chamei Pai Juca e falei:
Lá vem o homem, Pai Juca. Não sei por que o senhor não falou pra mim desse tesouro, que eu ia cavar sozinho!
Você já está velho pra isso, Simplício, e depois você nem está doente!
Bom dia, Vô Simplício. Aquele Espírito enganou nós dois! Olhe minhas mãos! Cavei e revirei as terras daquela baixada toda e não encontrei nada. Pergunte o que ele tem pra falar sobre isso?
Então, peguei um litro de caroço de feijão, um litro de caroço de milho e entreguei pro compadre, com o recado do Pai Juca:
Você, nhô Tino, leve este milho e este feijão, aproveite a terra revirada e plante tudo. Você vai ver o tesouro que achou na porta de sua cozinha! É só esperar a colheita. Não tem olho gordo em cima de você não, o amigo está é com o bicho preguiça agarrado nas suas costas.
Irmão Simplício calou-se à espera de meu comentário:
O maior tesouro legado pelo Pai ao homem é o trabalho, que o conduz sempre à boa colheita. É preciso aprender a valorizar o pão que temos à mesa, pois é a conquista de cada um. Lágrimas, preces, lamentos, promessas, reclamações não nos isentam dos benefícios do suor, na ação de resgate de nossos débitos e aquisição de novos valores para o amanhã.
(Espírito Cornélio Pires-Histórias Divertidas do Vô Simplício-Alceu Costa Filho)
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