No Fundo do Poço
Num momento de distração da babá, o garotinho de cinco anos ganhou o quintal, pulou o muro e perambulava em amplo terreno baldio… Aproximou-se, distraído, de buraco fundo e estreito, escavação abandonada de poço artesiano. Não deu outra: em momentos ei-lo precipitando-se no inesperado abismo.
A serviçal já o procurava, preocupada, quando ouviu o choro lamentoso que nascia nas entranhas da terra. Horrorizada, constatou o desastre. Seus gritos atraíram os vizinhos… Em breve chegavam os pais da criança, outros familiares, a polícia, bombeiros e toda uma multidão.
Consternação geral. Mobilizaram-se recursos de socorro. Primeiro tentaram içá-lo. Não deu certo. A solução seria um poço paralelo. Logo apareceu a escavadeira e gente habilidade, ansiosa por ajudar. Era uma corrida contra o tempo.
O menino não resistiria muito tempo na precária situação. Talvez estivesse machucado. Seu choro era lamentoso e débil…
Os pais falavam-lhe o tempo todo, animando-o. A custo dominavam o desespero… A multidão sofria junto. Todos queriam ajudar de algum modo, ainda que em simples oração, o que muitos faziam, contritos…
As horas se escoaram, a noite passou; a azáfama dos operários da escavadeira continuava. Ao fim da tarde estava aberto o novo poço. A profundidade não era suficiente, ainda. O trabalho reiniciou-se com homens usando pás. Depois, cuidadosamente, para evitar desmoronamento, iniciaram a ligação entre os dois buracos. A torcida era grande.
Finalmente, ao final de mais uma noite, os trabalhadores atingiram o menino, que foi retirado, surgindo à superfície muito pálido, abatido, assustado, mas vivo!
Os pais receberam-no felizes, dominados por funda emoção, que se estendia à multidão. Muitas lágrimas, muita gente rendendo graças a Deus, muitos vivas para os salvadores…
Raras pessoas deixariam de sensibilizar-se. Episódios assim despertam generosos impulsos de solidariedade, a demonstrar que nos refolhos da personalidade humana há, potencialmente, valores morais que identificam nossa condição de filhos de Deus.
Não obstante, é imperioso recordar que perto de nós, bem perto mesmo, em bairros pobres, há muitas crianças despencando em sombrios abismos de miséria. Atormentados pela fome e pelo frio, carentes de afeto e orientação, não raro atingem o fundo do poço das amarguras, que sufoca suas remotas possibilidades de uma existência compatível com as necessidades humanas.
Para ajudá-las é preciso algo mais do que a fugaz comiseração inspiradora de iniciativas indômitas, em situações extremas. É essencial a coragem de lutar dia a dia, hora a hora, contra a crônica indiferença que caracteriza o Homem, insipiente nos domínios da Fraternidade, a perpetuar na Terra o quadro contristador sustentado por aqueles que vivem tranquilos na superfície, surdos aos irmãos atormentados que clamam por socorro, no fundo do poço.
(Richard Simonetti-Atravessando a Rua)
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