A Bicicleta Que Não Veio
Gustavo morava num bairro de Londrina e, com seus sete anos de idade, nunca teve um brinquedo. Ele não tinha pai e sua mãe tinha que sustentar sete filhos.Seu sonho era ganhar uma bicicleta.
Sua madrinha, D. Alice, ficou sabendo de seu sonho e entregou à mãe R$ 50,00 para comprar a bicicleta. Gustavo ficou contente: finalmente realizaria seu sonho dali a um mês, no seu aniversário. Pelo valor, seria uma bicicleta usada, mas isso não importava.
Na semana seguinte, Jefferson, seu irmão mais novo, foi acometido por uma pneumonia e estava ardendo em febre. Inês, sua mãe, o levou ao médico, que receitou alguns remédios, mas não conseguiu arrumar amostras grátis.
Inês foi à farmácia e viu que os remédios custavam R$ 49,00. Ela, não tendo outra saída, gastou o dinheiro da bicicleta.
Gustavo ficou revoltadíssimo e comentou com seu outro irmão:
Não perdoo a mamãe! O dinheiro era para minha bicicleta! Ela sempre preferiu o Jefferson a mim!
Chateadíssimo, Gustavo foi dar uma volta pela vizinhança. Ele estava tão bravo que resmungava sozinho: - O dinheiro era para mim e não para ele. Não acredito que ela fez isto!
Depois de andar bastante, resolveu se sentar. Quando olhou para frente, viu um menino de mais ou menos dois anos sentado na porta da casa brincando com pedrinhas no chão. O olhar dele era tranquilo. De repente, seus olhinhos brilharam muito e um sorriso iluminou seu semblante. Seu irmão mais velho, Juliano, paraplégico, de oito anos, estava se aproximando na sua cadeira de rodas e disse:
Oi, Betinho! Já tomei o meu café. Quer dar uma volta na garupa da minha cadeira?
E Gustavo viu que o irmão ajudou aquela criança a subir na cadeira com muito amor e deu uma voltinha com ele. Os dois brincaram e se divertiram muito. O irmão contou muitas histórias.
Gustavo estava envergonhado. Lembrou-se do seu irmãozinho doente, da briga por não querer emprestar o dinheiro e da braveza por ter ficado sem a bicicleta. Tentou lembrar-se da última vez que brincou de cavalinho e de outras gostosas brincadeiras de rua com seu irmãozinho, mas não conseguiu.
Um grande arrependimento tomou conta de seu coração. Gustavo decidiu mudar e procurou conversar com Juliano. Este, apesar de paraplégico, não reclamava, estava muito alegre e conversou normalmente com Gustavo.
Contou que há um ano estava passeando de carro com seu tio e outras crianças e que, quando o carro fez uma curva, a porta se abriu e ele caiu de costas no chão. Isto lhe trouxe problemas para a coluna, deixando-o paralítico.
E você não fica triste? - perguntou Gustavo.
No começo, sim, mas depois minha mãe lembrou-me de que tenho dois braços fortes, dois olhos, e uma cabeça boa, e com isso fiquei até contente. Vou vencer na vida e ajudar os outros.
Gustavo ficou mais envergonhado ainda. Imagine ficar aborrecido por causa de uma bicicleta, ao passo que o Juliano, não obstante paraplégico, dava exemplo de alegria!
No dia seguinte, procurou Juliano e se ofereceu para empurrar sua cadeira de rodas no jardim.
Assim ele passou a fazer todas as manhãs e se sentia bem com os passeios, não só porque fez amizade com Juliano, mas também porque se sentia útil ao paralítico.
À noite, pensava: “Nunca imaginei como é bom ajudar alguém!”
Sua mãe notou a mudança radical do filho: era paciente com todos, contava histórias para os mais novos e até passou a ajudar em casa.
Trocou a bicicleta pelo prazer de servir, e confessou: - Mãe, no dia em que a senhora usou o meu dinheiro eu não gostei, mas hoje estou contente.
Por que meu filho?
Contente por ter ajudado a curar meu irmãozinho, e por ter aprendido que ajudar os outros deixa a gente mais feliz do que ter qualquer objeto de valor.
(Ivan Dutra-Novos Contos da Juventude)
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