A Dúvida
Júlio Moreira falava muito em reencarnação. Era moço ainda. Porte altivo. Maneiras refinadas. Dicção impecável.
Entretanto, não era satisfeito com o corpo físico. Rugas precoces e lábios exagerados davam-lhe aparência desagradável, em contraste com a postura nobre.
Conheço minhas vidas passadas, já pertenci à realeza - dizia ele com uma ponta de orgulho.
Naquele dia, durante as atividades assistenciais, o jovem tocava em seu assunto predileto. Volta e meia, fazia relatos de suas supostas vidas anteriores.
Hortêncio, companheiro mais velho do grupo, ponderava:
A reencarnação é bênção divina. Todos já vivemos experiências diversas no passado. Acertamos e erramos. Aprendemos e contraímos dívidas. Agora, com o Espiritismo, podemos entender que a reencarnação é oportunidade de resgatar débitos e adquirir novo aprendizado.
Júlio, porém, parecia não escutar a lição e voltava à carga:
Já fui rei.
É provável que tenha sido, mas o que importa é o que somos agora e o que estamos realizando - retrucou o amigo.
Contudo, Júlio prosseguia insistindo no relato de suas encarnações pretéritas, até que um companheiro, já impaciente, interferiu na conversa, afirmando com ênfase:
Duvido. É impossível que você tenha pertencido à realeza.
Júlio calou-se por um momento e perguntou, contrafeito:
Qual é a dúvida?
E o companheiro, já não suportando mais o assunto e desejando colocar nele um ponto final, examinou atentamente o corpo do interlocutor e arrematou, com certa maldade:
Para quem já foi rei, você está muito acabado.
(Espírito Hilário Silva-Contos e Crônicas 1-Antônio Baduy Filho)
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