A Vela
Eustáquio Cascadura tinha a natureza forte. Por pouca coisa, a explosão acontecia. Mecânico respeitado. Competência reconhecida. Profissional correto.
Apesar do gênio explosivo, formara enorme clientela na oficina. Empregava vários auxiliares. Era bom chefe. Dava orientações. Ensinava. Apoiava os funcionários até em seus problemas pessoais.
Cultivava princípios nobres e conquistara a admiração de seus pares. Homem de palavra. Pai de família modelar. Cidadão honesto. Contudo, tinha duas dificuldades: os ataques de cólera e a falta de fé. Era estourado.
Aristeu, sócio de muitos anos e espírita praticante, aconselhava:
Eduque os nervos. Crise de raiva é orgulho ferido. O Evangelho nos ensina que devemos incinerar a arrogância nas chamas da humildade. E a fé é a centelha divina que alimenta as labaredas da renovação íntima.
A conversa se dava enquanto ambos examinavam um motor a explosão. Eustáquio retirou uma peça e disse:
É a vela de ignição. Está suja. Não dá faísca que preste para queimar o combustível. O motor falha e dá estouros.
Aristeu tomou a peça entre os dedos e comentou:
Seu caso é parecido com a situação desta vela. Trate de melhorar a fé.
O mecânico ficou confuso. Calou-se e esperou a explicação. O sócio continuou:
Sua fé não dá faísca suficiente para queimar o orgulho.
Eustáquio incomodou-se. Alterou a voz e falou, já irritado:
E daí?
Aristeu, que conhecia as reações exageradas do amigo, deu alguns passos para trás e completou, sorridente:
Aí, você dá o estouro.
(Espírito Hilário Silva-Contos e Crônicas 2-Antônio Baduy Filho)
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