Amiga Inveja. Amiga Preguiça
Já que o senhor está aqui, seu Cornélio, vou contar mais uma história. O senhor espere que vou colocar uma água pro café no fogo, enquanto a gente conversa, ela ferve! O senhor, que é Espírito, não carece do café, mas eu ainda preciso.
Fique à vontade, irmão Simplício.
Eu estou, meu filho, só não fica à vontade quem tem peso na consciência, não é mesmo? Bem, meu filho, preste atenção que vou contar:
O Sinfonia, meu galo de estimação, ainda estava no segundo canto daquela manhã, quando um tropel de cavalo parou na porta de casa e Pai Juca veio logo me falar:
Simplício, meu filho, chegou aí uma mulher montada numa charrete, carregando junto duas almas penadas.
Antes de Pai Juca acabar de me contar, ela bateu palma com tanta força que parecia o trovejar de uma garrucha!
Vô Simplício! Ó de casa!
Bom dia, comadre, a senhora levantou cedo hoje! E seu marido, o compadre Isidoro, está bom?
Ele está bom, Vô Simplício! O senhor me desculpe pela hora, mas quem precisa começa cedo, o senhor não acha?
Até quem não precisa deve começar, como eu hoje. Mas o que a comadre está precisando, em que posso ajudar?
Antes de pedir o favor, quero que aceite meus agrados. É coisa pouca, mas de grande valia. Está tudo guardado dentro desse embornal, que o senhor pode guardar pro senhor também!
Vamos apear, então, minha filha, dar um descanso para o animal que está com muita carga.
Não é preciso apear, não, Vô Simplício. Estou é carecendo de um favor pequeno! Preciso de uma oração boa pra melhorar as coisas lá em casa. Estamos passando muito aperto nas finanças, os trocados que meu Isidoro ganha mal dão pra comida! O senhor preste atenção: na casa da comadre Aparecida, compraram cinco vacas leiteiras no mês que passou. Comadre Esperança comprou três novilhas prenhes, no mês passado. E lá em casa não compramos nem uma galinha! De tanta raiva e pra não ficar escutando as histórias das comadres, não tenho ido mais nas novenas do padre Venâncio. Estou precisando que o senhor dê um jeito no meu Isidoro pra ele ganhar mais dinheiro.Estou cansada de ser pobre e humilhada. O senhor vai me ensinar a simpatia e a oração, Vô Simplício?
Nessa hora, o Espírito Pai Juca, que já estava perto, me ensinou tudo o que eu devia falar:
Vou sim, minha filha! Guarde aí na cabeça o que vai fazer. Vocês têm um pedaço de terra vermelha nos fundos da casa fazendo divisa com o Córrego das Pacas, não é mesmo? Pois é. A filha, mas só a filha, sem a ajuda de ninguém, vai fazer ali uma roça de mandioca com as mudas bentas que vou arranjar e, enquanto as mudas crescem, vai fazer uma promessa pra N. Senhora da Providência rezar seis terços por dia até o dia de colher as mandiocas.
Mas e a simpatia pra melhorar o ganho do meu Isidoro?
Seu Isidoro é homem que nasceu pra ser o que é, e vocês já criaram cinco filhos com ele trabalhando igual hoje. É melhor deixar ele sossegado. Agora vamos é cuidar da comadre! Você pode ir agora dona “Rípedes” e comece fazendo as orações antes de chegar em casa.
Está bem, Vô Simplício, vou fazer conforme o senhor me ensinou, fique com Deus!
Estou sempre com Ele, minha filha, mas aí na sua charrete não cabe mais ninguém, não é mesmo?
O povo comenta que às vezes o senhor fica meio caduco, pelas coisas que fala, Vô Simplício! Veja só, o senhor errou o meu nome e minha charrete está vazia…
Ela não esperou a resposta e foi embora levando as duas almas penadas sentadas do lado dela! Pai Juca me falou que o nome delas era inveja e preguiça. São os amigos de quem quer subir na vida à custa dos outros!
Mas há duas coisas que me deixaram intrigado, irmão Simplício…
O que foi, seu Cornélio?
Em primeiro lugar o nome estranho que o senhor deu a essa senhora; em segundo, posso até entender o motivo das orações, mas não compreendo o porquê da plantação da mandioca!
Bem, seu Cornélio, quem quer colher que plante, não é mesmo? A mulher já criou os filhos, mas dona inveja montou nela e está brigando com dona preguiça, que já tem moradia ali há muitos anos. Se dona preguiça deixar ela plantar as mandiocas, quando ela colher, vai ter dinheiro para comprar as vacas e as novilhas que quer! Sobre o nome dela, o senhor também está certo. Não é “Rípedes”, eu tirei um pedaço dele! O padre a batizou com o nome de Florípedes, mas de flor ela não tem nada não! Outro dia, seu Cornélio, conto a história de quando ela voltou aqui seis meses depois.
Vou querer ouvir sim, meu amigo.
E o ensinamento da história, o senhor entendeu?
Claro, meu irmão. O homem é insaciável em seus sonhos e ambições, não sabe contentar-se. O necessário não lhe basta. Reclama pelo supérfluo! Antes de queixar-se da vida, deveria observar que colhe o que plantou, como está hoje plantando o que colherá no amanhã, pois “digno é o trabalhador de seu salário”.
(Espírito Cornélio Pires-Histórias Divertidas do Vô Simplício-Alceu Costa Filho)
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