A Bengala
Altivo Brandão era arrogante ao extremo. Corpo empertigado. Cabeça erguida. Olhar de desdém.
Guarda-livros de profissão, fazia a escrita de pequenas lojas na cidade. Vestia-se com apuro. Não dispensava o paletó e a gravata borboleta. Carregava sempre uma bengala de cabo trabalhado, não por necessidade, mas para compor o figurino elegante de tempos antigos.
Tornara-se espírita havia longa data. Frequentava os estudos e a assistência fraterna. Contudo, embora a convivência demorada com as lições evangélicas e doutrinárias, não se libertava do orgulho. Ao contrário, piorava com o passar dos anos. Achava-se superior aos outros. Criticava, em público, os colegas. Desdenhava os necessitados. A situação tornou-se insustentável quando, numa tarde de sábado, durante a distribuição da sopa, humilhou um dos assistidos. Os companheiros se revoltaram.
Ercílio, amigo mais chegado, foi conversar. Dizia, com preocupação:
Não entendo. Você conhece o Evangelho e age dessa maneira. É preciso seguir os ensinamentos de Jesus, atentar no conhecimento do Espiritismo. O orgulho não passa de mero engano. Hoje, estamos em posição vantajosa. Amanhã, a reencarnação poderá exigir de nós situação mais penosa. Tenha caridade para com o próximo, tenha indulgência…
Palavras em vão. O guarda-livros sempre retrucava, com empáfia:
Não tenho culpa de ser melhor do que eles.
O tempo foi passando. Certa vez, tarde da noite, quando voltava para casa, Altivo tropeçou na própria bengala e caiu. Baque surdo. Dor intensa. Dificuldade para se mover. Àquela hora, a rua estava deserta. Foi socorrido por vigia noturno das proximidades, que tomou todas as providências. Ao final, Altivo se surpreendeu ao reconhecer no benfeitor o assistido que humilhara. Envergonhou-se. Tomou-lhe as mãos e agradeceu com emoção. Prometeu encontrá-lo depois. E, no silêncio de sua intimidade, resolveu que era hora de mudar.
O acidente chegou ao conhecimento do grupo assistencial. Ao receber a visita de Ercílio, contou-lhe toda a história. O amigo carregou o semblante e falou, sério:
Estou humilhado. Fui vencido por ela.
O guarda-livros não entendeu. O companheiro prosseguiu:
Não consegui convencê-lo a mudar. Ela, sim.
Altivo não compreendia nada e, exasperado, perguntou, quase aos gritos:
Ela, quem?
E Ercílio, soltando longa gargalhada, completou:
A bengala.
(Espírito Hilário Silva-Contos e Crônicas 2-Antônio Baduy Filho)
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