segunda-feira, 4 de outubro de 2021

 Moral em Xeque


Alexandre era um rapaz sonhador. Esperava concluir o curso de técnico de contabilidade para integrar-se no seio da pequena burguesia; para tanto, dedicou os melhores dias de sua vida, a época florida da juventude, estudando com afinco tudo que se relacionasse com a parte burocrática de um escritório de empresa, aprimorando-se com carinho na profissão que escolhera.

Concluídos os estudos, de posse do ambicionado diploma, presto, dedicou-se ao registro do mesmo no Conselho Regional. Era a conquista de um “status” que lhe proporcionaria as condições necessárias para ter uma vida relativamente confortável, juntamente com sua esposa, pois casara-se recentemente. Os planos eram maravilhosos!

Iniciava-se novo ano e com ele as atividades profissionais.

Aguardou o primeiro domingo, após estar devidamente habilitado, para comprar os jornais que lhe dariam condições de selecionar as melhores ofertas de emprego. De posse de alguns recortes de jornais, iniciou a maratona dos testes para a conquista de uma vaga de contador.

Após alguns dias de ansiosa espera, a almejada oportunidade de trabalho apareceu. Foi contratado. Em retribuição dedicar-se-ia com todo amor a colaborar para a grandeza e riqueza da empresa que lhe dera tão desejada oportunidade de emprego. 

Felicíssimo, enfrentou os primeiros dias de trabalho, relacionando-se muito bem com os novos colegas de serviço e entrosando-se nos misteres que lhe cabiam. Mas, à medida que ia penetrando nos meandros inextrincáveis da máquina administrativa, foi arrefecendo-se o entusiasmo, tendo em vista o contraste entre a teoria e a prática. Viu, com muita tristeza, que tinha que endossar certas arbitrariedades administrativas, acobertando, por meios desonestos, a ganância desenfreada daqueles que visavam o máximo de lucro, não importando os meios inconfessáveis para alcançá-los. Triste realidade!

Casado, com inúmeros compromissos para saldar, pois tinha adquirido móveis e utensílios domésticos à prestação, além da carga pesadíssima do aluguel da moradia, estava escravizado aos compromissos, embora desejasse abandonar o emprego, esperando encontrar outro, onde os patrões não fossem desonestos; mas, infelizmente, as dívidas e a própria sobrevivência mantinham-no algemado à empresa, mesmo contrariando os seus princípios e o juramento que fizera por ocasião do recebimento do diploma. Arrependeu-se amargamente de ter enveredado por esse caminho profissional, mas era tarde, já que estava enleado pelos tentáculos dos compromissos.

Sua consciência lhe dizia que mesmo não se beneficiando do roubo aos cofres da nação, pela sonegação desenfreada, era um cúmplice da administração, porque falseava os dados apresentados às repartições públicas.

Aproximava-se o encerramento do exercício e mais crescia a sua ansiedade, pois tinha que assinar o balanço irreal. O que fazer? Continuar cumpliciando com os diretores desonestos, acobertando-lhes a sonegação de tributos, ou abandonar o emprego e arriscar-se a passar vexames pelo não cumprimento dos compromissos e mendigar empréstimos dos parentes e amigos para sobreviver?

Numa dessas indormidas noites, de tanto pensar no drama que estava vivendo, resolveu pedir demissão, dando o aviso prévio: com isso estaria em paz e teria tempo necessário para procurar uma nova colocação empregatícia. Talvez fosse mais feliz na escolha do novo emprego!

Informou à sua esposa que tinha sido dispensado por motivo desconhecido. Era preferível ser visto como incompetente, a ter que envolvê-la no mesmo drama que estava vivendo. O importante era que tinha vencido a terrível prova. Tinha tido a coragem de vencer as vantagens materiais, porque em troca das mesmas, exigiam-lhe a queda moral.

“De nada adianta ganhar o mundo e perder a alma”.

(Antonio F. Rodrigues-Contando Histórias)


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