segunda-feira, 21 de setembro de 2020

 O Valor do que Falta

Todos os dias a pobre mãe, apesar dos parcos recursos que detinha, oferecia, com o mais extremado carinho, a alimentação ao filho.

Nessas ocasiões, sentava-se à mesa e conversava com ele, relacionando os acontecimentos do dia e lhe perguntando como tinha sido o seu…

A tudo isso o jovem correspondia com enfado, em monossílabos, insatisfeito. No entanto, a mãe continuava com os seus comentários em torno das dificuldades enfrentadas, mas realçando a esperança que tinha no Deus de misericórdia que, com certeza, lhe traria dias melhores.

O filho, não suportando mais, terminava o alimento sem uma palavra sequer de conforto, dirigindo-se logo para o seu quarto, ou ligando a televisão para ouvir o noticiário, e não dar mais atenção à genitora, fazendo-a notar o seu completo desinteresse pelos assuntos do dia. 

A infeliz velhinha, percebendo o cansaço do rapaz, punha-se a afagar-lhe a espessa cabeleira e, em pensamento, orava por sua felicidade, para logo após recolher-se ao sono físico. 

Aconteceu que aquela nobre senhora adoecera rapidamente, desencarnando em poucas horas, sem tempo de despedir-se do filho que estava entregue aos afazeres cotidianos. 

Ao chegar em casa, o jovem surpreendeu-se… Sua mãezinha havia partido para o mundo invisível…

Sem crença alguma, apesar dos princípios da fé materna, no velório e no enterro portou-se quase indiferente. Ouviu os comentários dos religiosos, mas não se deixou comover. Achava a vida assim mesmo, ingrata, cujo final era a morte. 

Chegando em sua residência, sentou-se à mesa e já não viu mais aquele prato quente de comida, olhou a cadeira à sua frente e não mais avistou nem percebeu a mãe, nem lhe ouviu a voz meiga comentando as ocorrências, nem obteve mais de seus lábios as perguntas em torno do seu dia, de sua rotina. 

E sem que notasse, sentiu que lágrimas grossas desciam de seus olhos… Chorou, chorou muito, pensando no tempo que perdeu em não retribuir à sua mãe o mesmo carinho e dedicação de que era objeto…

Apesar disso, dessas reflexões amargas, ao seu lado estava, como dante, silenciosa, sem ser vista, sua mãe afagando-lhe os cabelos e orando por sua paz…

Em muitas situações somos ingratos, ignorando as oferendas do Pai Celeste às nossas existências. E, somente quando perdemos esses recursos é que sabemos perfeitamente o valor do que falta…

(Espírito Valérium-Contos do Invisível-Nilton Souza)


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