Reencontro
Uma caravana de Espíritos recém-chegados da Terra caminhava, vagarosamente, por sombria estrada de região intermediária do Umbral (Região espiritual onde se reúnem os Espíritos inferiores).
Trôpegos uns, arrastando-se em andrajos; fatigados outros pela longa jornada, famintos e sequiosos, lembravam um exército em retirada. Eram soldados derrotados, estampando, nas fisionomias doridas, o desânimo, a descrença e a humilhação. Mal se falavam, gemendo e vociferando pragas. Tristeza e melancolia estampavam-se nos rostos vincados de dor. Ninguém os comandava, caminhavam a passos incertos e sem rumo, presos uns aos outros por invisíveis correntes fluídicas.
Vez por outra, os que vinham à frente paravam, indecisos, como à procura do itinerário.
Numa bifurcação da estrada, enorme árvore deitava sombra amena, convidando ao descanso.
Exaustos, parecendo obedecer a uma ordem inaudível, desfizeram a fila, esparramando-se à beira da estrada. O silêncio reinava, ouvindo-se, apenas aqui e ali, queixas, lamentos e gemidos.
Um dos andarilhos, animando-se, dirigiu-se ao companheiro de estrada e perguntou:
- Amigo, não estou entendendo mais nada. O que estamos fazendo nesta estrada, caminhando como bois para o matadouro?
O interpelado, olhando para o interlocutor, respondeu:
- A quem perguntas? Também eu não compreendo coisa alguma.
E, identificando-se, prosseguiu:
- Meu nome é Batista. Só me recordo que estava num comício, ouvindo um discurso político, quando começou um tiroteio. Armou-se uma correria e ouvi os gritos do povo em desespero. Logo fui arrastado de roldão, pisoteado e perdi os sentidos. Quando acordei, zonzo, sentindo dores no corpo inteiro, vi-me no meio de toda essa gente, caminhando, caminhando... Perdi até a capacidade de pensar.
Alongando a vista pela estrada, concluiu:
- Acho que o comício acabou. Tudo aqui me parece muito estranho.
- Pois é isso - interrompeu o que dera início à conversa - eu também estava numa festa. A propósito, meu nome é João Pedro. Era uma recepção no palacete de um grande industrial, meu amigo, em que a bebida corria à vontade. Comemorava-se o fechamento de um grande negócio que renderia milhões de dólares. De repente, não sei como, quando levava um copo de bebida à boca, senti um formigamento e uma dor insuportável no lado esquerdo, na altura do coração. Aconteceu num segundo. Rodou-me a cabeça, escureceu-me a vista, e eu ainda ouvi vozes aflitas, em meio a sonoras risadas daqueles que se divertiam com as anedotas. Depois disso, apenas o silêncio.
Após uma pausa, acrescentou:
- E agora, meu amigo, encontro-me aqui, nesse desfile de fantasmas, todo maltrapilho, faminto, sedento, com as pernas doloridas e fatigadas.
Firmou os olhos indagadores no companheiro e disse:
- O que aconteceu, afinal?
No mesmo instante, parecendo atender a um chamado, surgiu à frente dos dois uma figura gigantesca, de longa barba e riso alvar.
Segurando-os pelos braços, gritou, com voz ríspida:
- Até que enfim os encontrei, seus patifes. Há mais de duzentos anos que os procuro, sem um dia de descanso, ora aqui no mundo das almas perdidas, ora na vida carnal!
Rindo maldosamente, ameaçou:
- Finalmente encontrei a oportunidade da minha desforra! A justiça tarda, mas não falha!
Sacudindo-os violentamente, afirmou:
- Vocês agora não me escapam!
Espantados e cada vez mais incrédulos, Batista e João Pedro perguntaram a uma só voz:
- Quem é você? E que história é essa?
- Não se lembram? Vou refrescar a memória dos dois.
Passando a mão na testa de cada um, num gesto de prestidigitação, falou:
- Vejam!
Desenrolaram-se na tela mental de Batista e João Pedro episódios de uma existência transcorrida há mais de dois séculos em que os três tramavam vários negócios escusos.
Ludibriavam-se entre si, embora fossem cúmplices, enganando-se reciprocamente. Enriqueceram locupletando-se de fortunas alheias, mediante toda a sorte de fraudes. Desavieram-se, por fim, como sempre acontece, na partilha de ganhos ilícitos. Um deles, o que agora se apresentava com ânimo de vingança, terminou seus dias na prisão, delatado pelos companheiros como único responsável por um vultoso desfalque ao erário público.
A visão mental se apagou.
- Deus, você é o Clodoaldo! - disse o que se chamava Batista.
- Clodoaldo! - ajuntou, perplexo, João Pedro.
- Eu mesmo, seus traidores. Agora me pagarão os anos que passei na prisão, enquanto vocês gozavam, à tripa forra, os milhões roubados.
- Mas isso já faz muito tempo - apelou Batista, apavorado.
- Já vivemos outras existências, pelo que eu sei, e você também. Sofremos muito, passamos fome, também fomos roubados.
- Não, seus larápios, para mim esse tempo não conta. Vou levá-los para onde estou vivendo, lá no meio das trevas, e vou trancafiá-los no xadrez durante o mesmo tempo em que fiquei preso.
E o Espírito, identificado como Clodoaldo, algemou os antigos comparsas, empurrando-os pela estrada, até que desapareceram na escuridão dos caminhos.
Este é um relato singelo, muito comum nos planos inferiores da Espiritualidade, onde os Espíritos sofredores e vingativos escravizam-se e se obsidiam, uns aos outros, completamente alheios ao remorso e ao arrependimento.
(Espírito Humberto de Campos-Casos e Coisas, Daqui e Daí...-Heitor L. Filho)
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