Entre Vivos e Mortos
Neste meu estágio de vida, já dobrando a curva da existência, por força das circunstâncias, pelo fato de ser Espírita, tenho convivido, de perto, com o fenômeno da “morte”. Quantos parentes e amigos já desencarnaram em meus braços, quantas lágrimas já tentei estancar nestas horas tristes.
Se encararmos a “morte” no seu aspecto puramente físico, material, em si mesma, nenhum atrativo pode ela apresentar. Desde o momento em que o Espírito se liberta do corpo somático, este começa a perder o seu encanto. A matéria orgânica passa à inorgânica. Desaparece o vigor da vida. Vem a rigidez cadavérica e o corpo que era animado pelo fluxo da corrente vital, por força da lei natural, cai na vala comum da decomposição. Os vermes tomam conta do resto. Que coisa horrível é um cadáver em decomposição. Assim, sob o ângulo material, a “morte” é fúnebre e muito triste.
Mas acontece, meus amigos, que não devemos pensar na “morte” em termos de “morte”, mas em termos de vida. Sim, “vida e vida em abundância” como nos garantiu o nosso Mestre Jesus. Devemos enxergar na “morte” a libertação do Espírito. Não devemos nos preocupar com o casulo que fica e que serviu, apenas, para agasalhar, temporariamente, a gentil libélula. Esta sim é que vale. O casulo fica para trás, cumprida a sua finalidade, mas a libélula voa sempre em demanda de outras paragens.
Lembremos dos nossos parentes e amigos que já partiram, em termos de vida, quando, ainda, animados pelo Espírito. Desde o instante que mudaram de nível, do mais denso para o menos denso, devemos fixá-los como seres vivos, bem mais vivos do que nós que ainda sentimos as limitações dos arneses.
Depositemos os despojos dos nossos entes queridos nos campos santos, certos de que ali nada mais resta - “memento homo quia pulvis es”. Por que haveremos de lembrar esqueletos em pó? Isso só nos traz tristezas e amarguras. Fixemos as fisionomias dos nossos parentes e amigos que já se foram apenas em termos de vida. Recordemos os momentos de alegria, os sorrisos estampados em seus semblantes cheios de vida, as melodias que cantavam, as poesias que declamavam, os violões que dedilhavam e as flores que nos ofertavam…
Tenhamos a plena certeza de que os Espíritos que nos são caros, por certo, estão sempre ao nosso lado, ajudando-nos, orientando-nos, muito embora as limitações da nossa organização somática não nos deixam percebê-los.
Vivemos, como sustenta o nosso saudoso Professor Herculano Pires, o “Século do Espírito”. A projeção da vida para além das campas solitárias já tem comprovação científica. Aparelhos sofisticados, eletrônicos, tão bem explicados pelo nosso Professor Dr. Hernani Guimarães, trazem-nos as vozes e as imagens dos nossos supostos “mortos”, bem mais vivos, com todas as faculdades morais e intelectuais.
Assim sendo, temos elementos que nos avalizam a assertiva: vivemos, não entre vivos e mortos, mas entre vivos do lado de cá e os mais vivos do lado de lá. Duas humanidades, em dimensões diferentes, que se cruzam e que se perpetuam na Avenida Infinita da Imortalidade.
(Domério de Oliveira-Nos Rastros do Eterno)
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