A Cidade Luz
Três irmãos viviam em sítio bastante retirado das grandes cidades, onde somente animais e carroças trafegavam, já que as estradas eram de barro batido, esburacadas, de acesso muito difícil.
Seus pais haviam desencarnado quando eles ainda eram bem pequenos, sendo criados por uma senhora negra, antiga empregada daquele pequeno sítio. A mãe de criação havia lhes dado educação primorosa e lhes informara que, muito além daqueles sítios, existiam terras, grandes centros comerciais, lindas cidades, que por certo, fariam a felicidade de quem por lá vivesse... Sempre lhes contava sobre a cidade de Agadir, toda iluminada, segundo ela, e que, para alcançá-la, o viajante teria que despender muitos esforços devido à caminhada difícil e dolorosa, e que somente os muito corajosos, determinados, resignados e pacientes encontravam e entravam nessa "cidade da luz".
Os rapazes ouviam as narrativas da "mãe preta" - era assim que carinhosamente a chamavam - e ficavam extasiados. Eram unânimes em afirmar que tão logo completassem a maioridade, seguiriam estrada afora para encontrar aquele local venturoso.
Os anos se passaram e ao alcançarem a idade esperada, anunciaram à velha servidora o intento dos três partirem.
A tutora concordou, fazendo, porém, a seguinte observação:
- "Existem dois caminhos. O primeiro é o do Campo Feliz, onde o viajor encontra facilidades que lhe satisfazem os sentidos... Campeia o jogo, muitos bares, bebidas, bordéis, onde são comuns brigas pelas disputas de bens materiais que lá se encontram, e que são cobiçados pelos concorrentes aos prêmios dessa estrada longa e florida. Como a estrada é longa, só depois de muito tempo o viajante chega ao destino. O outro itinerário é o Caminho das Pedras, um roteiro cansativo, exigindo do caminhante algo mais além do esforço físico, pois sendo isolado, o candidato tem que andar sozinho entre pedras, escarpas, pântanos e região desértica, além de enfrentar montanhas íngremes e vales profundos. Mas, há uma vantagem nele: é o caminho mais curto.
Os dois mais velhos escolheram o caminho do Campo Feliz. E, depois de receberem a parte da herança que lhes cabia por direito, partiram entre efusivas manifestações de alegria.
O mais novo empreendeu jornada enfrentando obstáculos, sol escaldante, chuvas torrenciais, estradas de pedras que cortaram seus pés e, por onde passava deixava sua marca de bondade, solidariedade e doçura, ajudando a outros peregrinos que como ele pretendiam atingir a iluminada cidade. Muitas lágrimas foram vertidas na sua caminhada de paz, principalmente quando se julgava incapaz de diminuir a dor alheia, só descansando após um dia de exaustivo trabalho no roteiro do bem.
Alcançou, por fim, a "cidade da luz", o foco de luz que tanto procurava em curto espaço de tempo, sentindo-se imensamente feliz!
O caminho do Campo Feliz é o dos vícios, dos desejos e paixões que nos degradam. É o caminho do jogo, do ódio, do ressentimento, da sensualidade e do apego aos bens perecíveis.
O Caminho das Pedras é o da sinceridade, da paciência, da fraternidade, do trabalho, da solidariedade... é o caminho do AMOR!
(Djalma Santos-Histórias da Vida Eterna)
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