A Ingratidão dos Homens
Ingratidão é a qualidade de ingrato. E ingrato é quem não reconhece o benefício que recebeu. É a pessoa desagradecida.
A ingratidão é ainda índice da involução do Espírito. Está entranhada no coração humano. Ao longo da nossa existência percebemos como é dolorida a dor da ingratidão. Podemos dizer que a ingratidão é filha dileta do egoísmo. À guisa de ilustração, fui testemunha de um quadro doloroso de ingratidão. Vejamos: conheci e fui aluno de um grande mestre. Este cidadão foi professor universitário e era portador de uma cultura imensa e de um coração ainda maior. Dominava as províncias do conhecimento. Ocupou cargos importantes. O seu "curriculum vitae" foi brilhantíssimo. Falava várias línguas, um poliglota. Jurista de renome internacional, escritor, poeta e filósofo. Nunca se preocupou com os bens materiais. Dizia-me que para viver bastava-lhe o necessário. Este mestre, quando no ápice de sua jornada, contava, sempre, com inúmeros "amigos" que o procuravam para um parecer jurídico ou para pleitear a assistência da ilustre cátedra. Enfim, o interesse falava alto. Uma palavra do mestre era, sempre, uma porta que se abria. Mas o perlúcido mestre foi envelhecendo. Aposentou-se e depois ficou viúvo. Os filhos tomaram rumos distantes e, praticamente, esqueceram o velho pai. Os "amigos" de outrora que tanto o bajulavam também desapareceram. Acompanhei os seus últimos dias. O mestre ficou mesmo sozinho, não contasse ele com a assistência de abnegada enfermeira e estaria em maus lençóis. Insidiosa moléstia minou o organismo do mestre, sobrando-lhe, ainda, a fulgurante inteligência do seu Espírito. Essa foi mais uma lição que a vida prática me ensinou. Então senti, profundamente, que a mola da nossa sociedade é o maldito interesse. Enquanto pudermos oferecer algo aos "amigos" estes estão ao nosso lado. Mas quando ficamos apenas com as nossas dores, os "amigos" desaparecem e muitos parentes também.
Para mim a ingratidão é o pior câncer da humanidade. Ela aí comanda, provando a dureza dos corações e o atraso espiritual das criaturas. O homem que já chegou à Lua e que já sondou os abismos dos oceanos, infelizmente ainda não deixou de ser ingrato.
Como é bom, na nossa solidão, nas nossas dores, contarmos com a gratidão de parentes e amigos. Como é bom também, visitarmos um velho amigo, levando-lhe o amparo nos momentos mais cruciantes.
Por isso mesmo, meu caro leitor, procure combater o seu egoísmo. Procure arrancar do seu íntimo a erva daninha da ingratidão. Seja amigo dos bons e dos maus. Perdoe sempre. Nunca se esqueça dos benefícios recebidos e procure retribuí-los, mesmo que seja, apenas, com um leve sorriso. Procure agir, não por interesse, mas por Amor Cristão. Hoje você tem a bússola que pode lhe orientar, mas amanhã se a sua bússola quebrar você poderá depender da bússola do seu próximo.
(Domério de Oliveira-Nos Rastros do Eterno)
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