terça-feira, 8 de setembro de 2020

 A Confissão do Padre Benedito

Atacado por pertinaz moléstia, Eleutério sentia aproximar-se a hora fatal. Em sua memória, milagrosamente rejuvenescida, corriam cenas de sua vida, nem sempre ornada de virtudes. Afligia-se com a reminiscência dos tempos idos, quase certo de que as visões denunciavam seus últimos momentos na Terra.

Rodeavam seu leito, enleados de tristeza e amortalhados em lágrimas, a esposa e os filhos, já maduros, que pouca falta sentiriam dele, que dera tudo a eles em vida, reservando para si apenas o suficiente para um final de vida cômodo e digno.

Respirava em haustos, sentindo apagar-se a luz dos olhos; as pálpebras pesavam como chumbo, trêmulas pelo esforço de mantê-las abertas.

Dona Antônia, sua esposa, desfiava entre os dedos as contas do rosário, invocando nos mistérios a piedade do Pai Santíssimo pela alma daquele que, sempre o soubera, não foi fiel no matrimônio, nem muito correto como comerciante. Mesmo assim, com os lábios trêmulos, ela rogava que o reino dos Céus não fosse negado a ele.

Eleutério, apesar de tudo, manifestou algumas virtudes. Acreditava em Deus, frequentava assiduamente a santa missa e confessava-se, regularmente, dos pecados veniais e mortais que, certamente, pesavam, constantemente, na sua alma. No mais, se não fora um santo varão, também um perdido não houvera sido.

Era, assim, semelhante a um mortal comum.

Enquanto orava, a vida do marido ia por um fio, à espera de que, a qualquer momento, viessem a cortá-la os Espíritos designados pelo Senhor.

Nesse ínterim, antes do desenlace fatal, surgiu à frente de Eleutério, enchendo-lhe a visão agônica, o padre Benedito Cruz, velho conhecido dos dias passados, a quem muito se confessara.

Certo de que já estava na hora de ir, em face da aparição da alma do velho sacerdote, Eleutério sorriu com satisfação, cogitando, feliz, que o Senhor levara em conta os seus sentimentos religiosos. Prova disso é que enviara, para recebê-lo, o vigário da igreja de São Vicente em que ele, Eleutério, pelo menos uma vez por mês, redimia-se diante de Deus, expurgando o mal que insistia em acumular na alma. 

Em inaudível diálogo com o padre, em espírito, disse:

"Pelo que vejo, vai levar-me em sua companhia para o Céu!"

O sacerdote sorriu, olhar piedoso e um tanto desconsolado, mas não replicou. Limitou-se a olhar para a alma de seu antigo paroquiano, que se esforçava em se libertar do corpo.

"Então?", prosseguiu Eleutério, observando a mudez e o ar estranho do sacerdote. "Não me diz nada? Nem ao menos me estende as mãos para ajudar-me a abandonar a carcaça? Olhe, eu já não me interesso pelas coisas do mundo e estou ansioso para conhecer as belezas do Céu e confirmar se são, realmente, como o padre pregava em seus sermões."

O sacerdote, porém, continuava quedo, a olhar o pobre homem. Da sua fisionomia emanava profunda tristeza.

"Padre Benedito!", recomeçou Eleutério, aflito com a atitude do vigário, que parecia não muito satisfeito. "Afinal, o que está acontecendo? Vejo em seu rosto algo que me deixa apreensivo. Será que o senhor não tem boas notícias? Será que, apesar das missas, das confissões, das comunhões e do dinheiro que, tantas vezes, depositei na caixa das almas, não sou digno de ser recebido pelo Senhor?"

Eleutério perguntou, temeroso de que o padre respondesse com a verdade e que, em vez de ir ao Paraíso, tivesse, ainda, de fazer um estágio nas altas temperaturas do purgatório.

Finalmente, emergindo do estado contemplativo, o padre Benedito abriu a boca, temeroso de desiludir o amigo. Diante do momento final que se aproximava, não havia tempo para adiar a revelação:

"Meu bom amigo, receio que não tenha, realmente, boas notícias." Depois de uma pausa, acrescentou:

"Em primeiro lugar, quero dizer que não vim buscá-lo, pois ainda não me foi dada a sublime missão de amparar e encaminhar os irmãos na hora do regresso. Estou aqui com a permissão dos meus superiores, na condição de seu amigo, apenas para assistir o seu regresso e lhe dar as boas vindas."

"Então não é um enviado do Senhor? Não está ainda no Céu, apesar das pregações que fez durante a vida inteira?"

Fisicamente agonizante, Eleutério mantinha o Espírito lúcido diante do inusitado. Imaginava que, se o padre Benedito Cruz não havia conseguido, ainda, entrar no reino do Senhor, o que aconteceria a ele, Eleutério Resende da Silva, um simples pecador? Não acreditava no que ouvia.

"É isso mesmo, irmão Eleutério. Não sou nenhum enviado do Pai, não estou no Céu, nem mesmo em suas cercanias. Na verdade, de nada me valeram os anos todos pregando o Evangelho se, poucas vezes, ou quase nenhuma, segui os caminhos que ensinava aos meus ouvintes. Quantas vezes passei as noites insone, lavado de luxúria, pensando nas confissões que me faziam certas moçoilas e senhoras. E os sonhos impudicos? Pensava nas coisas profanas e me esquecia das coisas santas, embora sempre me apresentasse como um severo e sisudo pastor para as almas combalidas e ingênuas."

Após um pequeno silêncio, aduziu:

"Ah, meu amigo, e o dinheiro das almas? A maior parte eu juntava para mim, depois de satisfazer as necessidades humanas mais prementes. Guardei o dinheiro e o deixei trancado num cofre enterrado debaixo da sacristia, com medo de que alguém pudesse pilhar-me e deixar-me em dificuldades."

Eleutério ouvia aquela confissão, embasbacado.

"Muitas outras coisas eu fiz, amigo Eleutério, muitas outras coisas que nem vale a pena recordar. Na verdade, não fui aquele sacerdote que todos admiravam. E, quanto á doutrina que pregava, quanto engano, quanta ilusão! Só aqui, depois de algum tempo, é que vim aprender a verdade".

Eleutério, aflito por ver escapar de si a possibilidade de salvação, indagou:

"Muito bem, padre, se não está no Céu, nem no purgatório, nem no inferno, onde é que se encontra sua alma?"

"Em lugar nenhum!", respondeu o padre, angustiado com a pergunta.

"Em lugar nenhum?", insistiu Eleutério, estupefato. "Em algum lugar há de estar, ora essa! Afinal de contas, estou morto, mas não estou doido."

"Quero dizer...", emendou o padre Benedito. "Estou na erraticidade".

"E que lugar é esse?"

"Não é lugar nenhum. E é em todo lugar", retrucou o vigário, agora se divertindo com a atrapalhação de Eleutério. Retomando a seriedade, o padre esclareceu:

"A erraticidade é o espaço espiritual em que ficam todos os Espíritos que devem reencarnar. Os que ainda possuem dívidas a saldar ali permanecem, em preparo, aguardando o momento de retornar à carne por meio de um novo nascimento."

"Meu Deus!", exclamou Eleutério. "Depois de tanto sofrer ainda temos de nascer outra vez para pagar dívidas?"

"Sem dúvida!", confirmou o padre Benedito. "É o que acontecerá com todos os que abandonam a Terra sem cumprir os ensinamentos de Nosso Senhor Jesus Cristo."

Eleutério, cujo Espírito ainda continuava com dificuldade, preso ao corpo físico, permaneceu alguns segundos sem saber o que pensar. Não compreendendo nada do que revelou o antigo sacerdote, mas concluindo que sua aspiração de alcançar o Céu se evaporava como num sopro, desconsolado, resignou-se:

"Se é assim..."

Lançando um olhar amortecido para a mulher e os filhos, que se debulhavam em lágrimas, exclamou:

"Se eu tenho de voltar para este mundo, permita Deus que eu encontre, na nova vida, uma mulher igual à Antônia."

Olhando na direção da aparição do padre, invisível aos demais, ameaçou ressentido:

"Mas que não apareça nenhum padre Benedito para levar o meu rico dinheiro e guardá-lo num cofre debaixo da sacristia."

(Espírito Humberto de Campos-Casos e Coisas, Daqui e Daí...-Heitor Luz Filho)

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