A Vaidosa
Simpatia e beleza, irmanavam-se no corpo jovem de Luciana. E ela sabia explorar esses atributos, para sentir o prazer de ver todos os rapazes mendigar-lhe algumas palavras ou mesmo um sorriso.
Quando passava pelas ruas da cidade interiorana em que residia, num gingar de corpo, como se estivesse a bailar, todos voltavam-se para contemplar tão bela criatura. E as exclamações surgiam:
- Quem me dera possuir tão bela garota! Diziam alguns.
- Essa aí põe no chinelo qualquer "miss" Brasil" Exclamavam outros.
Com o passar do tempo, embora suas amigas a advertissem, ela procurava ressaltar ainda mais os seus dotes físicos, seja aumentando o decote da blusa ou reduzindo a saia, a fim de expor ainda mais o seu corpo escultural e exuberante.
Volúvel como era, nunca se interessou por alguém, preocupada apenas em obter exclamações admirativas.
Muitos afirmavam:
- Essa garota qualquer dia vai sofrer as consequências de sua vaidade desmedida!
Seus pais e parentes preocupavam-se com esse comportamento frívolo, mas não conseguiam alterar-lhe a conduta, apesar dos conselhos e advertências, que tinham sempre a mesma resposta:
- Ora, deixe-me viver como eu gosto! Quero ver essa mocidade arrojar-se aos meus pés, não só para vê-los sofrer, mas também para causar inveja às minhas amigas. Isto me faz muito feliz!
Certo dia, a rádio local, em edição especial, divulga a seguinte notícia:
- A polícia desta cidade acaba de ser avisada que num terreno baldio da periferia foi encontrado um corpo de uma moça, com diversas perfurações a faca. O assassino deve ser um "tarado", pois o corpo da jovem, além de estar nu, apresenta evidentes sinais de que foi violentada. Seu estado é lastimável!
Os comentários sucediam-se, alguns condoendo-se pelo triste fim que Luciana havia tido; outros dizendo que ela recebera o que procurara, devido à sua atitude leviana.
Depois de algum tempo no Plano Espiritual, Luciana recuperou-se da perturbação causada pelo desencarne violento e passou a se preparar para regressar ao mundo dos encarnados, graças à interferência de bondoso Espírito que a recolhera em um hospital de repouso onde, além das atenções recebidas, quanto ao corpo físico, recebera também orientação evangélica, preparando-a para a nova experiência terrena.
Depois de alguns anos, Luciana foi informada de que seu dia para imersão no corpo de carne estava próximo e ela, se quisesse, diante do aproveitamento que tivera nas aulas recebidas, poderia escolher a tarefa que desejasse. Emocionada, disse:
- Quanto à tarefa, deixo a escolha a cargo de meu protetor, mas quanto às condições físicas, se me for concedida a oportunidade de escolha, gostaria que meu corpo fosse bem feio, a fim de não reincidir nos mesmos erros que tantos sofrimentos me causaram. Somente as mulheres que enfrentaram um bárbaro assassino como o que me destruiu o corpo carnal, poderão avaliar o pavor e os sofrimentos que passei. Foram momentos terríveis, mas necessários, para que eu me curasse da triste mania de brincar com os corações alheios.
Era uma madrugada chuvosa, fria, com relâmpagos riscando o céu em todas as direções. Um ribombar fazia-se ouvir a cada instante, dando impressão que a natureza estava protestando contra alguma coisa inexplicável para os homens.
Velho casebre albergava um casal que ultrapassava os trinta anos. Tratava-se de modesto servente de pedreiro e sua esposa. Ela estava sendo atendida por uma parteira, que aguardava o nascimento de uma criança.
Os minutos passavam, como se fossem horas, tal a ansiedade da atendente e os sofrimentos da futura mãe.
Vez por outra, a mãe dizia:
- Eu acho que meu filho não quer nascer! Há tanto tempo que espero um filho e agora que estou grávida, essa demora me causa apreensão! É sempre assim, Etelvina?
- Não se perturbe, Mariazinha! É que a cegonha está com medo dos trovões! Quando a chuva passar ela chegará! Fique calma! Vai dar tudo certo!
O marido, então, não parava de andar de um lado para o outro, como todo o pai em expectativa. Não se sabia quem sofria mais, se a mãe ou o pai.
A chuva foi cessando, até que as últimas gotas caíram na terra encharcada da cidade. O choro da criança fez com que o pai estacasse em sua andança da sala para a cozinha e vice-versa. Ficou meio abobalhado, sem saber o que fazer, até que falou com seus botões:
- Mas o que é que estou fazendo aqui parado! Vá logo ver o filho, bobão!
Com um sorriso enorme, adentrou o quarto e foi logo dizendo:
- Cadê o meu filho?
- Calma, Chicão, respondeu a parteira. Pra começo de conversa, não é filho e sim filha!
E foi apresentando aquela coisinha pequenina que representava toda a riqueza da Terra para o ansioso pai, e que para outros, talvez, fosse uma criatura muito feia, feíssima mesmo!
A mãe ao lado quis justificar a pergunta do marido:
- O Chicão esperava um filho para ajudá-lo mais tarde!...
- É! disse Etelvina, todos querem mesmo é um filho, mas se não houvesse mulheres, não existiria ninguém na face da Terra, não é mesmo Mariazinha?
- Claro, Etelvina! Mas limpa a menininha logo e agasalha ela, senão ela morre de frio!
Vendo que a tarefa de Etelvina estava terminada, Chicão aproximou-se mais da preciosa carga e constatou que a primogênita não era nada do que esperava. De fato, era bem feia, feíssima, não adiantava tapar o sol com a peneira. Por isso, para desviar o pensamento de tal preocupação, num surto inspirativo, afirmou:
- É! Você disse - dirigindo-se à Etelvina - que a cegonha chegaria quando parasse a chuva! Nisso você acertou. Só que esqueceu de acrescentar, que ela representará para nós a separação das trevas da ansiedade (há muitos anos esperando um filho) do raiar de um novo dia de muitas felicidades.
A profecia concretizou-se. A filha de Mariazinha somente alegrias transmitiu aos seus pais, dedicando-se inteiramente aos mesmos, pois, devido à feiura, não conseguiu encontrar alguém que a pedisse em casamento. Amparou seus pais até a morte, dedicando-lhes muito amor e carinho.
A garota bela de antanho, que era feia de Espírito, transformou-se em belo Espírito de corpo feio; só que o corpo é transitório e desfez-se em pó, enquanto que o Espírito é imperecível e brilhará cada vez mais em seu jornadear eterno.
(Antonio F. Rodrigues-Contando Histórias)
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