quarta-feira, 9 de setembro de 2020

 A Volta de Jesus

Josias era exaltado seguidor de uma igreja reformada. Em toda a vizinhança, era conhecido por seu zelo religioso. Cumpria à risca todos os postulados evangélicos, desde a interpretação das letras bíblicas até à assiduidade infalível aos cultos dominicais, no sincero anseio de entrar, depois da morte, no Reino dos Céus. 

E assim Josias viveu mais de quarenta longos anos, tentando converter para suas opiniões não apenas os familiares, mas também amigos e conhecidos, às vezes, esta a verdade, sem resultado algum.

Um dia, a sua grande hora soou. Sucumbindo ao ataque traiçoeiro de um infarto no miocárdio - nosso personagem se viu, de repente, do outro lado da vida! E porque não tivera viver desregrado, muito ao contrário, a si mesmo se impusera, desde mocinho, rígido código moral - não ficou nas trevas dolorosas da Espiritualidade.

No entanto, não se sentia feliz! Era como se lhe faltasse algo em seu interior. E neste impasse levou uns dez anos. Cansado de sentir-se sem destino, sem rumo a seguir, numa linda noite de estrelas irrompeu copioso pranto. E invocou a caridade da proteção divina.

As lágrimas abundantes lavaram-lhe o coração. Sentiu-se aliviado. Foi então quando viu perto de si uma entidade de imenso fulgor. Era como se uma enorme estrela tomasse a forma humana, infundindo-lhe, na intimidade, um novo alento de reconfortante paz.

- Ó Jesus! exclamou Josias, admirado. Quanto tempo estive à tua espera, Senhor! Como anseio por sua volta, meu Salvador! Parti do mundo sem a alegria de tê-lo visto na ressurreição dos mortos. Esperava, então, encontrá-lo aqui, no bendito seio do Altíssimo. Só agora é que tu voltas?

E tendo ajoelhado, Josias procurava beijar amorosamente as mãos do celeste enviado. Mas, expressando-se com ternura, a entidade explicou, sorrindo:

- Josias, não me consideres Jesus! Sou apenas o teu companheiro espiritual. Nada mais que isso. De longa data eu tenho sido o teu anjo-guardião, amando-o na condição de um filho muito querido. Acompanho-te os passos desde quando foste pária na Índia, pescador na China, barbeiro entre os gregos, soldado romano e monge medieval. Foste marinheiro espanhol e emigrante francês. Pois bem, durante todas estas épocas eu te segui, Josias, tendo ficado radiante de alegria quando te vi, no Brasil, abraçando a seara cristã-evangélica em tua última romagem à Terra.

- Mas Paulo - interrompeu Josias, um tanto confuso com a revelação que acabava de ouvir - não dizia aos hebreus, Capítulo 9, versículo 27, que aos homens está ordenado morrerem uma só vez e, depois, sobrevém o Juízo? Como dizes haver eu vivido diversas vidas?

- Josias, esqueces que o mesmo Paulo também anotou em sua epístola aos efésios no Capítulo 4, versículo 13, que todos hão de crescer e chegar à unidade da fé, ao pleno conhecimento do Filho de Deus, à medida da estatura e da plenitude do Cristo? Analisa-te a ti mesmo, Josias, e vê lá com teus botões se já te podes dizer na medida da estrutura e da plenitude de Cristo?

- Bem, desconversou Josias. E Jesus, ele não voltará?

- Josias, só mesmo a multiplicidade de existências corpóreas é que nos faculta a possibilidade de progredir moral, espiritual e mesmo materialmente. Muitas vidas da viveste. Muitas outras viverás até poderes também ser um Espírito de primeira categoria. Nascer, morrer, renascer e progredir sempre - tal é a lei de Deus. Cada encarnação não é um castigo mas uma bendita oportunidade de progresso em todos os sentidos. Quanto à volta do Mestre Querido, ele jamais deixou o mundo órfão de sua suave presença. Ele sempre esteve contigo, Josias. Sempre. Tu é que não o viste, não o reconheceste no auxílio que poderias ter prodigalizado a tantos quantos te procuravam. Dizias que a fé seria o bastante para alcançar a graça do ingresso no Reino de Deus, quando em verdade só a caridade é que nos abre as portas do céu interior.

- Como assim? Ainda não entendi, exclama Josias, mais confuso ainda.

- Jesus, meu amigo, está de volta na criança pobre que nos pede um agasalho. Está no velhinho que nos espera um sorriso. No jovem que nos aguarda uma orientação. Jesus está de volta no chefe de família que se deixa levar pelos vícios por ignorar as vantagens da temperança - sem que alguém o advirta a tempo... Está de volta na mulher vaidosa que ainda não atinou com as finalidades maiores da existência, por falta de alguém que a oriente fraternalmente...

Sacudido então por violento pranto, Josias conseguiu a custo balbuciar:

- E agora, meu amigo, que faço eu?

Abraçando-o ternamente, o protetor amável responde com calma e meiguice:

- Meu filho, mais uma outra vez volta à Terra e sê, para tantos quantos necessitem de ti, a verdadeira volta de Jesus. 

(Celso Martins-Contando Histórias)

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