terça-feira, 29 de setembro de 2020

 Enéias e Anquises


Quando Enéias reencontra o seu pai, Anquises, nas regiões avernais, estranha o herói que, às margens do rio Letes, se debrucem tantas sombras, bebendo, sequiosamente, a linfa cristalina. “Que rio é este, meu pai, em que tão copiosa gente se atropela às margens?”

Anquises, em tom grave, responde-lhe: “É o formoso Letes, onde as almas buscam o esquecimento para de novo voltarem às prisões corpóreas”. Enéias enche-se de admiração e exclama: “Pois é crível, meu pai, que almas excelsas, como as vejo, desejem voltar aos tardos corpos carnais? Oh! desejo de vida insano e triste”! Novamente Anquises, com muita paciência, esclarece: “Cada um sofre em seus manes. Poucas almas alcançam as doces veigas do amplo Elísio. Só a mão do tempo, depois da morte, depura a flama e afina a aura. Na sua maioria, ainda são Espíritos pastosos e grosseiros, sentindo as sensações materialmente e em terríveis angústias, daí a sofreguidão com que desejam esquecer, sorvendo as águas do plácido Letes.” E o velho pai arrematou: “Se quiserdes saber, muitas destas excelsas sombras serão, em vosso futuro reino, aqueles que hão de vir, enchendo ali de glória o dárdano tronco, tornando-se geradores de reis, os que, em suma, elevarão a ínclita Roma até o fulgir de Augusto.”


Os discípulos juntam-se ao redor de Jesus e crivam-no de perguntas: “Mestre amado - os nossos adversários dizem que vós não sois o Messias, pois que as escrituras rezam que antes de vir o Messias deveria, à frente, vir Elias. E, afinal, Elias ainda não veio!”  A isto, Jesus obtempera: “Se quiserdes saber, verdadeiramente, Elias já veio e ninguém o reconheceu. João Batista é o Elias noutra roupagem.”


Eis, pois, como na Eneida, do imortal Virgílio ou nas singelas palavras do Evangelho, sempre o mesmo ensino: A revelação concernente à vida sucessiva que, por fim, Allan Kardec, como professor de almas, sintetizou nesta expressão: “Nascer, morrer, renascer de novo e progredir sempre.”

Quando teria nascido a sua alma? Em que momento evolutivo teria podido ela gritar “Eu”? De que forma enovelamo-nos em torno de um eixo tornando, o Espírito, que se derrama em todas as coisas, um ser com o nosso nome, a nossa paixão, o nosso egoísmo, os nossos anseios?

Agora, ao repositório antigo, teríamos de adicionar aqueles que com a ciência, pesquisa comparativa, métodos de regressão, buscam compreender o homem, como o neurofisiologista Ian Stevenson ou Banerjee. Quem nesta idade da astronáutica, do salto à Lua, conseguirá colocar-nos na máquina do tempo retrospectiva e permitir que nos identifiquemos em roupagens exóticas de homens que já viveram alhures?

(Mário B. Tamassía-Os Mortos Acordam os Vivos)


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