As Crianças
Havia muito, João Custódio se dedicava à benemerência. Era bem de vida. Fazendeiro realizado. Cidadão de prestígio. Tivera sucesso nos negócios e acumulara apreciável patrimônio. Contudo, nunca esquecera o compromisso com o próximo. Ajudara na construção e bancava o sustento de várias entidades assistenciais.
Com os cabelos já grisalhos e depois de momento difícil na vida, conhecera o Espiritismo. Desde então, passara a frequentar a assistência fraterna e os estudos semanais. Tomou conhecimento mais amplo do Evangelho e ficou impressionado com a referência de Jesus às crianças.
Certa noite, após as tarefas, anunciou sua decisão. Resolvera dar maior tempo ao trabalho de assistência à infância. Comentou, eufórico:
Vou estar perto do temperamento infantil. Jesus disse que aquele que não receber o reino de Deus como as crianças não entrará nele. Quero aprender com elas.
Os companheiros ouviram com surpresa a notícia. Moacir, o mais experiente nos estudos, argumentou:
Jesus realmente tomou a infância como modelo de pureza. Aproveitou a presença daquelas crianças para realçar a simplicidade e a humildade como condições imprescindíveis à entrada no reino dos Céus. Entretanto, é a transformação moral que leva a conquista dessas qualidades.
João Custódio, porém, estava decidido. Fundou uma instituição de amparo à infância e, diariamente, em horário certo, oferecia farta e nutritiva refeição às crianças.
Participava ele mesmo das atividades. No início, era todo entusiasmo. Com o tempo, no entanto, foi percebendo a dificuldade de manter a disciplina e a harmonia entre os pequenos. Passou a ser alvo de chacotas. Palavras desrespeitosas. Agressões verbais. Por fim, desistiu. A assistência prosseguia, mas João Custódio ficava distante.
Quando Moacir foi visitá-lo na instituição, indagou, preocupado:
O que aconteceu?
O benfeitor respondeu, abatido:
Não deu certo. Aquelas crianças do Evangelho eram diferentes e serviam de modelo para ganhar o reino de Deus.
Dirigiu o olhar triste para o amigo e desabafou:
Essas daqui não levam ninguém para o Céu.
(Espírito Hilário Silva-Contos e Crônicas-Antônio Baduy Filho)
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