sexta-feira, 20 de novembro de 2020

 A Companhia Agradável

Severina era muito medrosa, principalmente quando se tratava de assuntos espirituais, e não escondia isso de ninguém, sempre que alguma pessoa lhe falava sobre algum desencarne ou sabia de algum velório, ela se esquivava, dava sempre uma desculpa ou alegava falta de tempo para não comparecer, tal o medo e constrangimento de que se sentia portadora nessas ocasiões.

Quando saia à noite gostava de estar sempre acompanhada, principalmente quando tinha que passar por lugares sombrios. Não podia nem ouvir falar em cemitério, pois, segundo ela, escondia fantasmas dos chamados mortos, que deveriam ficar em suas sepulturas a fim de não prejudicar os que por aqui viviam.

Os anos foram passando e o medo de Severina só fazia aumentar, deixando parentes e amigos preocupados com o pavor que ela sentia pelos desencarnados.

Por ironia do destino residia próxima ao cemitério da localidade, muito bonito, arborizado, com canteiros simetricamente organizados, e repletos de flores encantadoras. Local tranquilo e sossegado, servindo até de ponto turístico como também de ponto de referência, tal a beleza daquele lugar.

Severina sempre dizia que só passaria por ali acompanhada, de preferência por alguém de mais idade, mais experiente, que pudesse lhe dar proteção!...

Certa noite, ela voltava do trabalho. O seu turno havia sido trocado sem aviso, e agora teria que passar pelo cemitério. Como tinha que percorrer uns duzentos metros a pé, até chegar em casa, parou antes da porta do cemitério aguardando alguém que pudesse servir-lhe de companhia.

Decorridos alguns minutos, um velhinho simpático se aproximou, e de imediato ela perguntou se poderia caminhar com ele por alguns metros, no que foi aceito pelo ancião.

Ao chegarem em frente da sua casa, os dois pararam, e ela agradeceu ao velhinho pela companhia tão agradável:

  • Obrigada, tenho medo dos mortos e de cemitério!

  • Eu também, disse o velhinho, quando “estava encarnado”, tinha pavor dos mortos e horror de cemitérios!


Companheiros e companheiras de jornada, o medo, é, sem dúvida alguma, um corrosivo para nossas almas. Ele atrofia as nossas íntimas potencialidades de evolução e interage em nossa capacidade de discernir, dificultando nosso raciocínio, fragilizando-nos.

Temos que lutar com tenacidade contra o medo que se instala nos mecanismos secretos do nosso ser. 

(Djalma Santos-Histórias da Vida Eterna)


Nenhum comentário:

Postar um comentário