segunda-feira, 9 de novembro de 2020

 Código Penal da Vida Futura III


21º Ninguém é responsável senão pelas suas faltas pessoais; ninguém sofrerá as penas das faltas dos outros, a menos que lhes haja dado lugar, seja provocando-as com o seu exemplo, seja não as impedindo quando tinha esse poder.

Assim é que, por exemplo, o suicida é sempre punido; mas aquele que, pela sua dureza, leva um indivíduo ao desespero, e daí a se destruir, sofre uma pena ainda maior.

22º Embora a diversidade das penas seja infinita, há as que são inerentes à inferioridade dos Espíritos, e cujas consequências, salvo algumas nuanças, são quase idênticas.

A punição mais imediata, sobretudo entre aqueles que são apegados à vida material, negligenciando o progresso espiritual, consiste na lentidão da separação da alma e do corpo, nas angústias que acompanham a morte e o despertar na outra vida, na duração da perturbação, que pode persistir por meses e anos. Entre aqueles, ao contrário, cuja consciência é pura, que, em sua vida, se identificaram com a vida espiritual e se desligaram das coisas materiais, a separação é rápida, sem abalos, o despertar pacífico e a perturbação quase nenhuma. 

23º Um fenômeno, muito frequente entre os Espíritos de uma certa inferioridade moral, consiste em se crerem ainda vivos, e essa ilusão pode se prolongar durante anos, durante os quais sofrem todas as necessidades, todos os tormentos e todas as perplexidades da vida. 

24º Para o criminoso, a visão incessante das suas vítimas e das circunstâncias do crime é um cruel suplício.

25º Certos Espíritos são mergulhados em espessas trevas; outros estão num isolamento absoluto, no meio do espaço, atormentados pela ignorância da sua posição e da sua sorte. Os mais culpados sofrem torturas tanto mais pungentes quanto não lhes veem o fim. Muitos estão privados de ver os seres que lhes são caros. Todos, geralmente, suportam, com relativa intensidade, os males, as dores e as necessidades que fizeram os outros experimentarem, até que o “arrependimento” e o desejo de “reparação”, vêm e trazem um abrandamento, fazendo-os entrever a possibilidade de colocarem, por si mesmos, um fim a essa situação.

26º É um suplício para o orgulhoso ver, acima dele, na glória, cercado de festas, aqueles que havia desprezado na Terra, ao passo que está relegado às últimas posições; para o hipócrita, se ver traspassado pela luz que põe a nu os seus mais secretos pensamentos, que todo o mundo pode ler: nenhum meio há, para ele,  de se esconder e se dissimular; para o sensual, ter todas as tentações sem poder satisfazê-las; para o avaro, ver o seu ouro dilapidado e não poder retê-lo; para o egoísta, ser abandonado por todos e sofrer tudo o que os outros sofreram por ele; terá sede, e ninguém lhe dará de beber; terá fome, e ninguém lhe dará de comer; nenhuma só mão amiga vem apertar a sua, nenhuma voz complacente vem consolá-lo; não pensou senão em si, durante a sua vida, e ninguém pensa nele e o lamenta depois da sua morte. 

27º O meio de evitar ou atenuar as consequências dos defeitos na vida futura é deles se desfazer, o mais possível, na vida presente; é reparar o mal para não ter que repará-lo, mais tarde, de maneira mais terrível. Quanto mais se tarda, em se desfazer dos defeitos, mais as suas consequências são penosas, e mais rigorosa deve ser a reparação que se deve cumprir. 

28º A situação do Espírito, desde a sua entrada na Vida Espiritual, e aquela que ele se preparou, pela vida corporal. Mais tarde, uma nova encarnação lhe é dada para a expiação e a reparação, por meio de novas provas; mas a aproveita mais ou menos, em virtude do seu livre-arbítrio; se não a aproveita, é uma tarefa a recomeçar, cada vez em condições mais penosas; de sorte que aquele que sofre muito na Terra, pode-se dizer que tinha muito a expiar; os que gozam de uma felicidade aparente, malgrado os seus vícios e a sua inutilidade, estejam certos de pagá-la caro numa existência ulterior. Foi nesse sentido que Jesus disse: “Bem-aventurados os aflitos, porque serão consolados”.

29º A misericórdia de Deus, sem dúvida, é infinita, mas não é cega. O culpado ao qual perdoa, não está exonerado, e, enquanto não tenha satisfeito à justiça, sofre as consequências das suas faltas. Por misericórdia, é preciso entender que Deus não é inexorável, e que deixa sempre aberta a porta de retorno ao bem. 

30º Sendo as penas temporárias, e subordinadas ao arrependimento e à reparação, que dependem da livre vontade do homem, são, ao mesmo tempo, os castigos e os remédios que devem curar as feridas do mal. Os Espíritos em punição estão, pois, não como forçados condenados a determinado tempo, mais iguais a doentes no hospital, que sofrem da doença que, frequentemente, decorre das suas faltas, e os meios dolorosos de que necessita, mas que têm a esperança de sarar, e que saram tanto mais depressa quanto sigam exatamente as prescrições do médico, que vela por eles com solicitude. Se prolongam os seus sofrimentos, por suas faltas, o médico nada tem com isso.

31º Às penas que o Espírito sofre na vida espiritual, vêm se juntar as da vida corporal, que são a consequência das imperfeições do homem, de suas paixões, do mau uso das suas faculdades, e a expiação das faltas presentes e passadas. É na vida corporal que o Espírito repara o mal das suas existências anteriores, que põe em prática as resoluções tomadas na vida espiritual. Assim se explicam essas misérias e essas vicissitudes que, á primeira vista, parecem não ter razão de ser, e são de toda justiça desde que são a quitação do passado e servem para o nosso adiantamento.

32º Deus, diz-se, não provaria maior amor pelas suas criaturas, se as tivesse criado infalíveis e, consequentemente, isentas das vicissitudes relativas à imperfeição?

Seria necessário, para isso, que criasse seres perfeitos, nada tendo a adquirir, nem em conhecimentos e nem em moralidade. Sem nenhuma dúvida, poderia fazê-lo; se não o fez, foi porque, na Sua sabedoria, quis que o progresso fosse a lei geral.

Os homens são imperfeitos, e, como tais, sujeitos às vicissitudes mais ou menos penosas; é um fato que é preciso aceitar, uma vez que existe. Disso inferir que Deus não é bom e nem justo, seria uma revolta contra Ele.

Haveria injustiça se tivesse criado seres privilegiados, uns mais favorecidos do que os outros, gozando, sem trabalho, a felicidade que os outros alcançam com dificuldade, ou não podem jamais alcançar. Mas onde a sua justiça brilha é na igualdade absoluta, que preside à criação de todos os Espíritos; todos têm um mesmo ponto de partida; nenhum que seja, na sua formação, é melhor dotado do que os outros; nenhum cuja marcha ascensional seja facilitada por exceção; os que chegaram ao objetivo passaram, como quaisquer outros, pela fieira das provas e da inferioridade.

Isto admitido, o que de mais justo do que a liberdade de ação deixada a cada um? O caminho da felicidade está aberto a todos; o objetivo é o mesmo para todos; as condições, para alcançá-lo, são as mesmas para todos; a lei, gravada em todas as consciências, é ensinada a todos. Deus fez da felicidade o “prêmio do trabalho e não do favor”, a fim de que cada um dela tivesse mérito; ninguém está livre de trabalhar ou de nada fazer para o seu adiantamento; aquele que trabalha muito, e depressa, disso é mais cedo recompensado; aquele que se extravia do caminho perde o seu tempo, retarda a sua chegada, e isso não pode atribuir senão a si mesmo. O bem e o mal são voluntários e facultativos; sendo o homem livre, não é impelido nem para um e nem para o outro. 

33º Malgrado a diversidade dos gêneros e dos graus de sofrimento  dos Espíritos imperfeitos, o código penal da vida futura pode se resumir nestes três princípios:

  • O sofrimento está ligado à imperfeição.

  • Toda imperfeição e toda falta que lhe é consequente carrega consigo o seu próprio castigo, por suas consequências naturais e inevitáveis, como a doença é a consequência dos excessos, o tédio a da ociosidade, sem que haja uma condenação especial para cada falta e cada indivíduo.

  • Todo homem, podendo se desfazer das suas imperfeições, por efeito da sua vontade, pode se poupar dos males que as suas consequências, e assegurar a sua felicidade futura.

Tal é a Lei da Justiça Divina: a cada um segundo as suas obras, no Céu como na Terra. 

(Allan Kardec-O Céu e o Inferno)


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