domingo, 1 de novembro de 2020

 Estranho Culto


  • Olá, passeando?

  • Sim, visitarei meu filho.

  • Como?! Ele não morreu?!

  • Vou ao cemitério…


Este diálogo surrealista ocorre com frequência. As pessoas dispõem-se a visitar os mortos no cemitério. Levam flores e cuidam com muito carinho do túmulo, a “última morada”.

Determinados cultos religiosos chegam a orientar seus profitentes no sentido de levar-lhes alimentos. E há a tradicional queima de velas, para “iluminar os caminhos no Além”.

Certa vez, em minha infância, alguns companheiros e eu, garotos arteiros, fomos ao cemitério onde “afanamos” dezenas de velas, pretendendo usá-las em nossas brincadeiras.

Ao ter conhecimento da proeza, minha avó, uma velhinha italiana muito querida, zelosa das tradições religiosas, recolheu-as todas e, após admoestar-me com severidade pelo desrespeito, acendeu-as na varanda de nossa casa.

  • Velas por intenção das almas - explicou-me solene - devem queimar até o fim!

Dei graças aos Céus por vê-la desistir da ideia de obrigar-me a retornar ao cemitério, em plena noite, restituindo-as, acesas, aos “proprietários”. Com a generosidade que lhe era peculiar, aceitou o argumento de que seria impossível identificar exatamente as sepulturas de onde as retiramos. 

Há uma incrível deformação nas concepções a respeito do assunto. Muita gente não consegue assimilar plenamente a ideia de que o Espírito eterno segue seu destino no Plano Espiritual, deixando no cemitério apenas vestes carnais em decomposição, que nada têm a ver com sua individualidade, tanto quanto o terno de um indivíduo não é ele próprio. 

A frequência aos cemitérios configura-se, assim, como autêntico “culto aos cadáveres”, que desaparecerá na proporção em que a criatura humana assimilar noções mais amplas sobre a vida espiritual. 

Ressalte-se que quando pensamos intensamente naqueles que partiram é como se os evocássemos, trazendo-os até nós.

Não convertamos, portanto, as necrópoles em “salas de visitas do Além”. Há locais mais aprazíveis para esse contato, principalmente para o “morto”. Se ele desencarnou recentemente e ainda não está perfeitamente adaptado às novas realidades, sentir-se-á pouco à vontade na contemplação de seus despojos carnais. 

Se pretendemos cultuar a memória de familiares queridos, transferidos para o Além, elejamos o local ideal: nossa casa.

Usemos muitas flores para enfeitar a Vida, no aconchego do lar, nunca para exaltar a morte, na frieza do cemitério.

Eles preferirão, invariavelmente, receber nossa mensagem de carinho, pelo correio da saudade, sem selagem fúnebre.

É bom sentir saudade. Significa  que há amor em nossos corações, o sentimento supremo que empresta significado e objetivo à existência.

E talvez Deus tenha inventado a ilusão da morte para que superemos a tendência milenar de aprisionar o amor em círculos fechados de egoísmo familiar, ensinando-nos a cultivá-lo em plenitude, no esforço da fraternidade, do trabalho em favor do semelhante, que nos conduz às realizações mais nobres. 

Não permitamos, assim, que a saudade se converta em motivo de angústia e opressão. Usemos os filtros da confiança e da fé, dulcificando-a com a compreensão de que as ligações afetivas não se encerram na sepultura. O Amor, essência da Vida, estende-se, indestrutível, às Moradas do Infinito, ponte sublime que sustenta, indelével, a comunhão entre a Terra e o Céu.

Há, pois, dois motivos para não cultivarmos tristeza:

Sentimos saudade - não estamos mortos…

Nossos amados não estão mortos - sentem saudade…

E se formos capazes de orar, contritos e serenos, nesses momentos de evocação, orvalhando as flores da saudade com a bênção da esperança, sentiremos a presença deles entre nós, envolvendo suavemente nossos corações com cariciosos perfumes de alegria e paz. 

(Richard Simonetti-Vencendo a Morte e a Obsessão)


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